Ultrassom ginecológico: o guia completo, do útero aos ovários
O exame ginecológico organizado pelas perguntas que ele precisa responder: miomas pela FIGO, adenomiose pelo MUSA, endométrio com contexto, ovários policísticos, massas pelo O-RADS, endometriose e gestação inicial.
O ultrassom ginecológico é, ao mesmo tempo, um dos exames mais pedidos e um dos que mais dependem da forma de escrever. O mesmo útero pode sair como "útero miomatoso" ou como um mapa com cada mioma numerado e classificado; o mesmo ovário, como "cisto complexo" ou com uma categoria O-RADS que diz ao ginecologista o que fazer. A diferença não está no aparelho, está no laudo.
Este guia organiza o exame ginecológico pelas perguntas que ele precisa responder e aponta, em cada uma, o artigo que aprofunda o tema. Use como roteiro do exame e como índice do que já escrevemos sobre ginecologia.
A estrutura do exame
Todo laudo ginecológico segue a mesma espinha: útero (posição, dimensões, volume, contornos, miométrio), endométrio (espessura, aspecto, lesões focais), ovários (dimensões, volume, folículos, lesões), anexos e fundo de saco (líquido, massas) e a impressão diagnóstica. A via transvaginal é a de escolha sempre que possível; a abdominal complementa em úteros grandes e em pacientes sem vida sexual.
Três dados clínicos mudam a interpretação e precisam estar no laudo: a data da última menstruação, o status menopausal e o uso de hormônios (anticoncepcional, terapia hormonal, tamoxifeno). A estrutura completa, órgão por órgão, está no nosso texto sobre o laudo pélvico transvaginal.
Útero: miomas e adenomiose
As duas alterações mais comuns do miométrio pedem descrições diferentes:
- Miomas são descritos um a um: localização, medidas e, principalmente, o tipo FIGO (de 0 a 8), que diz quanto cada um invade a cavidade e define se a abordagem é histeroscópica ou não. Com muitos miomas, a numeração estável entre exames é o que permite comparar crescimento. Veja miomas uterinos e a classificação FIGO.
- Adenomiose é descrita pelos sinais do consenso MUSA, diretos (cistos miometriais, ilhas hiperecogênicas, linhas subendometriais) e indiretos (assimetria das paredes, sombras em leque, vascularização translesional), com forma, localização e extensão. Veja adenomiose e os critérios MUSA.
O diferencial entre as duas é um dos pontos mais importantes do exame: o mioma é bem delimitado e tem vascularização periférica; a adenomiose tem limites imprecisos e vasos atravessando a lesão. E as duas coexistem com frequência.
Endométrio: espessura com contexto
A espessura endometrial isolada não significa nada. Na menacme, varia com a fase do ciclo; na pós-menopausa, o corte de 4 mm vale para a paciente com sangramento, e não para a assintomática. O que motiva investigação na menacme é a lesão focal, sobretudo o pólipo, reconhecido pelo pedículo vascular único. Veja endométrio espessado e pólipo endometrial.
Quando a cavidade precisa ser avaliada em detalhe, como na infertilidade ou no sangramento com endométrio de difícil avaliação, a histerossonografia muda a acurácia do exame, e a HyCoSy acrescenta a permeabilidade tubária. Veja histerossonografia e HyCoSy.
Ovários: morfologia e massas
O ovário aparece no laudo por dois motivos bem diferentes.
O primeiro é a morfologia. A morfologia de ovários policísticos tem critérios objetivos atuais (20 ou mais folículos por ovário, ou volume de 10 mL ou mais) e é apenas um dos três critérios da síndrome. O ultrassom descreve a morfologia; não diagnostica a SOP. Veja ovários policísticos: critérios atualizados.
O segundo são as massas anexiais. Aqui o O-RADS substituiu o vago "cisto complexo" por categorias de risco com conduta associada: lesões clássicas benignas (cisto simples, cisto hemorrágico, endometrioma, teratoma) descritas pelo nome, e as demais classificadas pelos descritores do léxico. Veja O-RADS e as massas anexiais e o nosso guia das classificações.
Endometriose: o exame por compartimentos
A endometriose profunda deixou de ser um diagnóstico só da laparoscopia. O mapeamento pelo consenso IDEA segue quatro etapas (útero e ovários, sinais indiretos com o sliding sign, compartimento anterior e compartimento posterior) e descreve cada nódulo com localização e medidas. Em paciente com dor pélvica ou infertilidade, o exame de rotina deve pelo menos procurar os sinais indiretos. Veja o mapeamento de endometriose profunda.
Quando o ginecológico vira obstétrico
Com beta-hCG positivo, o ultrassom pélvico passa a responder outras perguntas: a gestação é intrauterina? É viável? Há sinais de gravidez ectópica? Os critérios de viabilidade são conservadores de propósito (CCN de 7 mm sem batimento, saco de 25 mm sem embrião) e a gestação de localização desconhecida não deve ser rotulada. Veja gestação inicial e critérios de viabilidade e gravidez ectópica.
Os erros que mais aparecem no laudo ginecológico
- "Útero miomatoso" sem número, localização e tipo FIGO.
- Endométrio espessado sem fase do ciclo ou status menopausal.
- "Ovários policísticos" concluído como síndrome, ou folículos chamados de cistos.
- "Cisto complexo" no lugar de uma categoria O-RADS ou de um nome de lesão clássica.
- Adenomiose diagnosticada só porque o útero está grande.
- Dor pélvica sem procurar sinais de endometriose.
Como o Laudário ajuda
O Laudário tem modelos de pelve feminina transvaginal e abdominal, com e sem Doppler, além de endometriose, histerossonografia, HyCoSy, reserva ovariana e monitoração folicular. Na prática:
- Miomas adicionados um a um, com tipo FIGO e numeração.
- Adenomiose pelos sinais MUSA.
- Volume uterino e ovariano calculados.
- O-RADS classificado a partir dos descritores.
- Recomendações em aba própria, separadas dos achados.
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