Miomas uterinos no ultrassom: classificação FIGO, mapeamento e o que o ginecologista precisa
Quantos, onde e quanto cada um invade a cavidade. Como descrever os miomas pela classificação da FIGO de 0 a 8, numerar e mapear quando são muitos, e diferenciar de adenomiose, pólipo e massa anexial.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom ginecológico: o guia completo, do útero aos ovários.
Mioma uterino é o achado pélvico mais comum da mulher adulta, e também um dos mais mal descritos. "Útero miomatoso" ou "múltiplos nódulos miometriais" não diz ao ginecologista o que ele precisa saber para decidir entre acompanhar, tratar clinicamente, fazer histeroscopia, miomectomia ou embolização. Essa decisão depende de três informações que o ultrassom entrega bem: quantos, onde e quanto cada um invade a cavidade.
Este texto mostra como descrever os miomas pela classificação da FIGO, como fazer o mapeamento quando há muitos e o que registrar de complicações e diagnósticos diferenciais.
O aspecto típico
O leiomioma aparece como nódulo sólido, bem delimitado, geralmente hipoecoico ou heterogêneo, com sombras acústicas em leque e vascularização periférica, circunferencial, ao Doppler. Esses elementos formam o aspecto típico descrito pelo grupo MUSA (Morphological Uterus Sonographic Assessment), que padronizou a terminologia do miométrio.
Miomas podem calcificar (imagem hiperecogênica com sombra densa, comum após a menopausa) ou sofrer degeneração, com áreas císticas e heterogeneidade. A degeneração, sobretudo na gestação, explica dor aguda.
A classificação da FIGO
A classificação da FIGO descreve a posição do mioma em relação à cavidade e à serosa, em tipos de 0 a 8:
- Tipo 0: submucoso pediculado, inteiramente dentro da cavidade.
- Tipo 1: submucoso, com menos de 50% no miométrio.
- Tipo 2: submucoso, com 50% ou mais no miométrio.
- Tipo 3: intramural, em contato com o endométrio, sem deformar a cavidade.
- Tipo 4: intramural puro.
- Tipo 5: subseroso, com 50% ou mais intramural.
- Tipo 6: subseroso, com menos de 50% intramural.
- Tipo 7: subseroso pediculado.
- Tipo 8: outros (cervical, parasita, do ligamento largo).
Miomas que tocam a cavidade e a serosa ao mesmo tempo são descritos com dois números, como 2-5. A importância prática é direta: os tipos 0, 1 e 2 são candidatos à histeroscopia e têm relação com sangramento e infertilidade; os subserosos raramente causam sangramento, mas podem causar compressão.
O que medir e registrar para cada mioma
- Localização: parede (anterior, posterior, fúndica, lateral direita ou esquerda) e segmento (corpo, istmo, colo).
- Tipo FIGO.
- Medidas nos três eixos.
- Para os submucosos, a espessura do miométrio livre entre o mioma e a serosa, que orienta a segurança da histeroscopia.
- Calcificação, degeneração e vascularização, quando relevantes.
Além dos miomas, o laudo registra o volume uterino total e o endométrio, que pode estar deformado ou ser difícil de medir.
Útero com muitos miomas: o mapeamento
Com vários nódulos, descrever todos em texto corrido gera um parágrafo ilegível. A solução é numerar os miomas (M1, M2, M3...) e manter a mesma numeração nos exames de seguimento, apresentando cada um em linha própria ou em tabela. Quando são muitos, uma alternativa aceita é descrever individualmente os maiores e os que têm relação com a cavidade, e agrupar os pequenos intramurais ("além de múltiplos nódulos intramurais menores que 1 cm").
Um mapa (cartograma) do útero com a posição de cada mioma é o que o cirurgião mais valoriza no planejamento da miomectomia.
Diagnósticos diferenciais
- Adenomiose: lesão mal delimitada, sem cápsula, com vascularização atravessando a lesão (e não circundando), cistos miometriais e estrias. O adenomioma focal é o diferencial mais difícil.
- Pólipo endometrial: diferencia-se do mioma tipo 0 pelo pedículo vascular único e pela ecogenicidade.
- Massa anexial sólida: o mioma subseroso pediculado pode simular tumor de ovário. Identificar o ovário separado da lesão e a ponte vascular com o útero resolve.
- Leiomiossarcoma: raro, mas deve ser lembrado diante de crescimento rápido após a menopausa, lesão grande e heterogênea, com áreas císticas irregulares e vascularização central desorganizada. Nessas situações, a recomendação de ressonância faz parte do laudo.
Erros comuns
- "Útero miomatoso" sem número, localização e tipo.
- Submucoso sem o tipo FIGO e sem o miométrio livre.
- Numeração diferente entre exames, que impede comparar crescimento.
- Mioma pediculado confundido com massa anexial.
- Não citar a relação com a cavidade em paciente com sangramento ou infertilidade.
Para a estrutura completa do exame, veja o nosso texto sobre o laudo pélvico transvaginal.
Como o Laudário ajuda
Nos modelos de pelve feminina do Laudário, os miomas são adicionados um a um. Na prática:
- Cada mioma com numeração, localização, medidas e tipo FIGO.
- Os mesmos campos para o seguimento, mantendo a numeração.
- Volume uterino calculado.
- Adenomiose pelos critérios MUSA em campos próprios, para o diferencial ficar claro.
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