Adenomiose no ultrassom: critérios MUSA, extensão e o diferencial com o mioma
Sinais diretos e indiretos pelo consenso MUSA, forma difusa ou focal, camada acometida e extensão, e os quatro elementos que separam adenomiose de mioma, incluindo a vascularização translesional.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom ginecológico: o guia completo, do útero aos ovários.
Durante muito tempo a adenomiose foi um diagnóstico de peça cirúrgica: a histerectomia confirmava o que a clínica sugeria. Hoje o ultrassom transvaginal faz esse diagnóstico com boa acurácia, desde que o examinador procure os sinais certos e use uma linguagem padronizada. É também uma causa frequente e subdiagnosticada de sangramento aumentado, cólica intensa e infertilidade, muitas vezes associada à endometriose.
Este texto apresenta os critérios do grupo MUSA, a forma de descrever a extensão da doença e o principal diagnóstico diferencial: o mioma.
O que é e por que o ultrassom mostra
A adenomiose é a presença de glândulas e estroma endometrial dentro do miométrio, com hipertrofia do músculo ao redor. Os sinais ecográficos refletem exatamente isso: ilhas de endométrio (ecogênicas ou com pequenos cistos) e miométrio reativo (espesso, assimétrico, com sombras).
Os critérios MUSA
O consenso MUSA (Morphological Uterus Sonographic Assessment) organizou os achados em sinais diretos, que mostram o tecido endometrial no miométrio, e indiretos, que mostram a reação do miométrio.
Sinais diretos
- Cistos miometriais: pequenas áreas anecoicas ou com conteúdo de baixa ecogenicidade no miométrio.
- Ilhas hiperecogênicas no miométrio.
- Linhas e botões subendometriais ecogênicos, que interrompem a zona juncional.
Sinais indiretos
- Assimetria das paredes: uma parede claramente mais espessa que a outra, sem mioma que explique.
- Sombras em leque (estrias lineares hipoecoicas).
- Útero globoso, aumentado.
- Vascularização translesional: ao Doppler, os vasos atravessam a lesão perpendicularmente à cavidade, em vez de contornar como no mioma.
- Zona juncional irregular ou interrompida, melhor avaliada no ultrassom tridimensional.
Os sinais diretos são mais específicos. A atualização do consenso MUSA propõe considerar adenomiose quando há pelo menos um sinal direto, e descrever os indiretos como sugestivos quando isolados. Na prática, quanto mais sinais, maior a confiança, e o laudo deve dizer quais foram observados.
Como descrever a extensão
Dizer apenas "sinais de adenomiose" não permite comparar exames nem orientar tratamento. O consenso sugere descrever:
- Localização: parede anterior, posterior, fúndica, lateral.
- Forma: difusa (espalhada pelo miométrio) ou focal (concentrada numa área); o adenomioma é a forma focal cercada por miométrio hipertrófico, com aspecto nodular.
- Camada acometida: interna (zona juncional), média ou externa. A forma externa se associa à endometriose profunda.
- Extensão: proporção do útero acometida, em leve, moderada ou acentuada.
- Tamanho das lesões focais.
Adenomiose ou mioma?
É o diferencial mais comum e o que mais muda conduta, porque miomas podem ser ressecados e adenomiose difusa não se "enuclea".
- Contornos: o mioma é bem delimitado; a adenomiose tem limites imprecisos.
- Vascularização: circunferencial, na periferia, no mioma; translesional na adenomiose.
- Efeito de massa: o mioma desloca o endométrio e a serosa; a adenomiose deforma pouco o contorno uterino, apesar de aumentar a parede.
- Cistos e ilhas ecogênicas: típicos da adenomiose, raros no mioma.
As duas condições coexistem com frequência, e o laudo pode e deve descrever ambas quando presentes.
Adenomiose e endometriose
A associação é frequente, sobretudo a adenomiose da camada externa com a endometriose profunda do compartimento posterior. Em pacientes com dor pélvica ou infertilidade, um laudo de adenomiose deveria vir acompanhado da avaliação dos compartimentos. Veja o nosso texto sobre o mapeamento de endometriose profunda.
Erros comuns
- Diagnosticar adenomiose só pelo útero aumentado.
- Não diferenciar forma difusa e focal.
- Chamar adenomioma de mioma (ou o contrário) sem usar o Doppler.
- Não citar quais sinais foram observados.
- Não avaliar endometriose associada em paciente com dor.
Como o Laudário ajuda
Nos modelos de pelve feminina e de endometriose do Laudário:
- Sinais diretos e indiretos do MUSA como opções para marcar.
- Forma difusa ou focal, localização e extensão.
- Miomas em campos separados, para os dois achados conviverem no laudo.
- Recomendações em aba própria.
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