Mapeamento de endometriose profunda: como estruturar o laudo por compartimentos segundo o consenso IDEA

Protocolos 8 de julho de 2026· 15 min de leitura

O ultrassom transvaginal deixou de ser um exame que “não vê endometriose” e passou a ser o método de primeira linha para o mapeamento da doença profunda — mas isso só é verdade quando o exame é feito com preparo, com manobras dinâmicas e com um laudo organizado por compartimentos anatômicos. O consenso IDEA (International Deep Endometriosis Analysis group, Guerriero et al., 2016) estabeleceu a linguagem comum desse mapeamento: quatro passos sistemáticos que vão da avaliação básica do útero e dos anexos até a pesquisa dirigida de nódulos infiltrativos nos compartimentos anterior e posterior, passando pelos soft markers e pelo sinal do deslizamento.

A diferença prática é grande. Um laudo que conclui “útero e anexos sem alterações” em uma paciente com dismenorreia incapacitante e dispareunia profunda não errou apenas o diagnóstico: ele atrasou, em média, anos de investigação. Já um laudo que descreve um nódulo retrocervical de 1,8 cm infiltrando a camada muscular própria do reto a 8 cm da borda anal, com fundo de saco de Douglas obliterado e sinal do deslizamento negativo, entrega ao cirurgião praticamente o planejamento operatório. Este texto percorre a estrutura completa desse laudo, compartimento por compartimento.

Por que o laudo por compartimentos mudou o diagnóstico da endometriose

A endometriose profunda (DIE, deep infiltrating endometriosis) é definida pela infiltração de tecido endometrial ectópico além de 5 mm sob a superfície peritoneal. É uma doença de topografia: ela não aparece difusa e aleatória, mas em sítios previsíveis, seguindo o trajeto do fluxo menstrual retrógrado e as áreas de menor mobilidade peritoneal. Justamente por ser previsível, ela é rastreável — desde que o examinador procure em cada sítio de forma dirigida.

Antes do IDEA, cada serviço tinha seu vocabulário. “Nódulo no fundo de saco”, “espessamento retrocervical”, “aderência posterior” e “lesão do septo” podiam descrever a mesma coisa ou coisas completamente diferentes, e o cirurgião não conseguia saber qual. Com a taxonomia por compartimentos, o laudo passou a responder sempre às mesmas perguntas, na mesma ordem: o compartimento anterior está acometido? E o central? E o posterior? E o lateral? O fundo de saco está obliterado? A doença chega ao intestino, e se chega, em que altura e em que camada?

Essa mudança tem consequência direta na sala de cirurgia. O acometimento do compartimento posterior com infiltração da muscular própria do reto define a necessidade de um cirurgião colorretal na equipe. O acometimento ureteral define a necessidade de um urologista e, eventualmente, de cateterização prévia. O laudo que não separa esses compartimentos obriga a equipe a descobrir isso no intraoperatório — o pior momento possível.

Os quatro passos do consenso IDEA

O consenso propõe uma sequência de exame, e essa mesma sequência deve organizar o laudo:

Note o que essa ordem revela: dois dos quatro passos são dinâmicos. A endometriose profunda é, em boa parte, um diagnóstico de exame em movimento, não de imagem congelada. Um laudo construído só a partir de imagens estáticas perde metade do consenso.

Passo 1: útero, ovários e a separação entre endometrioma e adenomiose

A avaliação começa pelo convencional, mas com duas atenções específicas.

O endometrioma tem descrição consagrada e deve ser laudado com ela, não como “cisto complexo”: imagem cística ovariana, tipicamente unilocular, de paredes lisas, com finos ecos internos homogêneos em suspensão (o clássico aspecto em vidro fosco), sem componente sólido ou projeção papilar e sem vascularização interna ao Doppler. Descrito assim, ele já sai classificado como O-RADS 2 quando mede até 10 cm. Vale registrar dimensões e volume, porque o seguimento e a decisão cirúrgica dependem deles — e porque o endometrioma é, isoladamente, um marcador de probabilidade aumentada de doença profunda em outros sítios. Encontrar um endometrioma é um convite para procurar mais, não um ponto final.

A adenomiose, por outro lado, precisa aparecer em linha separada da conclusão. Ela é uma entidade distinta: acometimento miometrial, não endometriose profunda. Misturar as duas na mesma frase da impressão diagnóstica confunde o clínico sobre o que exatamente foi encontrado. O laudo pode — e deve — relatar as duas quando coexistem, mas como achados separados.

Um sinal do passo 1 merece destaque próprio: os kissing ovaries, ovários aderidos entre si na linha média, atrás do útero. Não é uma curiosidade anatômica. É marcador de doença extensa, com forte associação a acometimento intestinal e a obliteração do fundo de saco, e deve ser explicitamente citado na conclusão sempre que presente.

Passo 2: os soft markers que só o exame dinâmico revela

Os soft markers são achados que não aparecem em nenhuma imagem impressa, e é por isso que tantos laudos os omitem. São dois:

Esses marcadores importam porque a endometriose aderencial pode existir sem nódulo mensurável. A paciente com pelve dolorosa, ovários fixos e fundo de saco parcialmente obliterado tem doença, mesmo que nenhuma lesão nodular seja medida. Um laudo que só reporta o que tem medida não descreve essa paciente.

Passo 3: o sinal do deslizamento e o estado do fundo de saco de Douglas

Este é o passo mais específico do consenso e o mais subutilizado na prática. O sinal do deslizamento é uma avaliação em tempo real: com o transdutor vaginal e a mão livre na parede abdominal, aplica-se pressão suave e observa-se se as superfícies peritoneais deslizam livremente umas sobre as outras.

São dois planos distintos, e é importante que o laudo diga qual deles foi avaliado:

A leitura é direta e define a conclusão sobre o Douglas:

Um laudo bem construído descreve isso em prosa clínica, não em jargão: “Avaliação dinâmica demonstrando sinal do deslizamento negativo bilateral, caracterizando obliteração completa do fundo de saco posterior”. E vale registrar também o nível da obliteração — retrocervical, uterino médio ou fúndico — porque isso antecipa a extensão da dissecção cirúrgica.

O mesmo raciocínio se aplica ao compartimento anterior, com a mobilidade útero-vesical: a parede posterior da bexiga desliza sobre a parede anterior do útero e sobre o colo? Aqui há uma armadilha interpretativa importante e que o laudo deve nomear: a fixação vesicouterina também é causada por cicatrizes de cesarianas prévias. Descrever “espaço vesicouterino obliterado” sem qualificar se a causa provável é endometriose ou aderência pós-cesárea entrega ao clínico uma informação ambígua em uma população em que a cesárea é extremamente comum.

Sobre o líquido no fundo de saco, uma nota de precisão: descrever a quantidade não basta. O aspecto é que informa — anecoico é fisiológico; em vidro fosco sugere sangue ou endometriose; com septações ou aderências internas aponta para processo inflamatório crônico.

Passo 4: os nódulos, compartimento por compartimento

Compartimento anterior

Abrange a bexiga, a uretra, os ureteres distais, o espaço vesicouterino e os ligamentos redondos.

A bexiga exige repleção adequada — e o laudo deve dizer qual era o estado de repleção, porque uma bexiga vazia simplesmente não permite avaliar o compartimento. A localização mais frequente da lesão é a parede posterior e o recesso vesicouterino, e o dado que muda a conduta é a profundidade de invasão: serosa/subserosa, muscular (detrusor) sem acometimento da mucosa, ou mucosa. Uma lesão que atinge o detrusor implica cistectomia parcial; uma lesão que atinge a mucosa muda a abordagem e frequentemente exige cistoscopia prévia. Descrever apenas “nódulo vesical de 1,5 cm” omite exatamente o dado operatório.

O ureter distal é o achado que mais silenciosamente compromete a paciente, porque a obstrução ureteral pode evoluir para perda funcional renal sem sintoma nenhum. Dois dados são obrigatórios quando há lesão:

Os ligamentos redondos completam o compartimento e são frequentemente esquecidos, sobretudo no segmento inguinal — uma paciente com nódulo doloroso na região inguinal que piora no período menstrual pode ter endometriose do ligamento redondo, e o laudo raramente cogita isso.

Compartimento posterior

É o compartimento mais acometido e o de descrição mais exigente. Envolve os ligamentos uterossacros, o torus uterinus, o septo retovaginal, a parede vaginal posterior, o recesso retrouterino e o reto-sigmoide.

Os ligamentos uterossacros (LUS) devem ser avaliados por segmento — inserção no torus, segmento proximal, segmento médio a distal — porque a extensão distal aproxima a lesão do plexo hipogástrico inferior e aumenta o risco de disfunção urinária pós-operatória. A morfologia típica é o espessamento hipoecoico em placa ou o nódulo sólido hipoecoico, com margens caracteristicamente irregulares.

O torus uterinus — a banda peritoneal transversal que une os dois LUS na região retrocervical — é o sítio central. Quando normal, a linha peritoneal retrocervical está íntegra. Quando acometido, o laudo deve registrar não só as medidas mas a extensão: envolve o fórnice vaginal posterior? Estende-se lateralmente para os LUS? Está aderido à parede anterior do reto? Como LUS e torus são a mesma região anatômica, quando ambos estão normais faz sentido descrevê-los em frase única, sem fragmentar o texto artificialmente.

O septo retovaginal e a parede vaginal posterior exigem a distância da borda anal em centímetros — é o dado que o cirurgião colorretal usa para decidir a técnica. E há um achado com nome próprio que vale conhecer: o nódulo tipo diabolo (ou em ampulheta), em que a lesão tem um componente no fórnice vaginal posterior em continuidade direta com a infiltração da parede anterior do reto, estrangulada no meio. É a configuração que define a necessidade de ressecção combinada.

Compartimento lateral

Menos citado nos consensos originais, mas clinicamente decisivo. Envolve os paramétrios, o segmento parametrial do ureter e as artérias uterinas. O acometimento parametrial é o que aproxima a doença do nervo hipogástrico e do plexo sacral, e é a razão pela qual algumas pacientes evoluem com disfunção vesical e dor neuropática após cirurgias extensas. Quando um nódulo espiculado é identificado em paramétrio, descrever se ele se situa no trajeto desses nervos é uma informação que o cirurgião não tem como obter de outro jeito antes da cirurgia.

O compartimento intestinal: altura e camada são tudo

A infiltração intestinal é o achado que mais muda o porte da cirurgia, e o laudo precisa responder a três perguntas com números.

Onde? A segmentação anatômica se faz pela distância da margem anal, e vale a pena laudar tanto o nome do segmento quanto a distância medida:

A altura importa porque lesões no reto baixo carregam risco significativamente maior de fístula e de necessidade de estomia de proteção. Um laudo que diz “lesão do reto” sem a distância deixa essa conversa para depois.

Quão fundo? A profundidade segue as camadas da parede: serosa/peritoneal, muscular própria, submucosa, mucosa. A infiltração da muscular própria é o divisor de águas — abaixo dela, a lesão pode ser tratada por shaving; a partir dela, entram em discussão a ressecção discoide e a ressecção segmentar.

Quanto? Percentual da circunferência acometida e grau de estenose luminal. Estes dois números conversam entre si: acometimento acima de 50% da circunferência ou estreitamento a partir de 75% são situações que caracterizam estenose luminal importante e que costumam inclinar a decisão para a ressecção segmentar. Quando a lesão é extensa e a paciente tem sintomas obstrutivos cíclicos, esses percentuais são o que sustenta a indicação.

Os sinais ecográficos clássicos do acometimento intestinal

A endometriose intestinal tem uma iconografia própria, com nomes que descrevem exatamente o que se vê. Usá-los no laudo comunica muito mais do que “espessamento parietal”:

Um achado adicional que merece registro é a tração da alça em direção à lesão: mesmo quando o nódulo é pequeno, a retração fibrótica que ele provoca denuncia a atividade infiltrativa.

A avaliação abdominal complementar que quase ninguém faz

O mapeamento não termina na pelve. Quatro sítios extrapélvicos merecem varredura dirigida, e cada um deles tem uma pergunta clínica própria:

O preparo não é detalhe: é o que define o que o exame pode afirmar

Nenhum outro exame ginecológico depende tanto do preparo, e nenhum outro tem tanta resistência a registrá-lo. Dois eixos precisam constar do laudo:

O ponto central é ético e clínico, não burocrático: um exame sem preparo intestinal não pode concluir ausência de endometriose profunda posterior. Ele pode concluir que não foram identificadas lesões nas condições técnicas obtidas — que é uma afirmação bem diferente. Registrar a limitação protege a paciente de um falso negativo tratado como diagnóstico definitivo, e protege o examinador.

Vale registrar também as limitações da avaliação dinâmica: dor intensa à mobilização e aderências extensas podem impedir a manobra do sliding sign. Se o sinal não pôde ser avaliado, o laudo diz isso — não diz que ele foi positivo.

Armadilhas do laudo de endometriose

Como o Laudário ajuda a estruturar o mapeamento de endometriose

O Laudário tem um módulo dedicado à pesquisa de endometriose, construído sobre a taxonomia por compartimentos e pensado para que nenhum passo do mapeamento seja esquecido na correria da rotina. Na prática, isso significa:

O resultado é um laudo que responde às perguntas que a equipe cirúrgica realmente faz, em vez de um relatório que confirma o óbvio. Em uma doença que leva anos para ser diagnosticada e cuja cirurgia varia de um procedimento simples a uma operação multidisciplinar de grande porte, a diferença entre um laudo genérico e um mapeamento estruturado é, literalmente, a diferença entre a paciente ser operada bem ou ser operada duas vezes.

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