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O-RADS no ultrassom: como classificar massas anexiais e parar de laudar "cisto complexo"

O ACR O-RADS substitui o "cisto complexo" por um léxico objetivo e cinco categorias com risco e conduta definidos. Veja os descritores, o color score de 1 a 4, o corte de 10 cm, as lesões típicas e o que muda na pós-menopausa.

LaudárioLaudos de ultrassom na prática 13 de julho de 2026 11 min de leitura atualizado em 16 de julho de 2026

Este artigo faz parte do guia Classificações padronizadas no laudo: o guia de BI-RADS, TI-RADS e O-RADS.

“Cisto complexo” é provavelmente o termo mais perigoso do laudo ginecológico. Ele não é um diagnóstico, não é uma categoria, não carrega risco estimado e não indica conduta. Ele apenas comunica ao médico solicitante que o ultrassonografista viu algo que não era simples — e transfere integralmente a decisão para quem não viu a imagem. O resultado é previsível: uma parte dessas pacientes é operada sem necessidade, e outra parte é acompanhada quando deveria ter sido encaminhada.

O ACR O-RADS US (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System) existe para acabar com isso. À semelhança do BI-RADS nas mamas e do TI-RADS na tireoide, ele oferece um léxico padronizado de descritores e uma escada de categorias de 0 a 5, cada uma com um risco estimado de malignidade e uma conduta associada. A promessa é simples e forte: se você descrever a lesão com os descritores certos, a categoria sai sozinha — e com ela, a conduta.

Por que o léxico resolve o problema

O ponto central do O-RADS não é a tabela de categorias. É o léxico. A razão pela qual “cisto complexo” sobrevive nos laudos é que ele é um atalho para não decidir entre descritores. No momento em que o examinador é obrigado a responder, uma a uma, às perguntas do léxico, a categoria deixa de ser uma opinião e passa a ser uma consequência.

As perguntas são estas, e nessa ordem:

  • A lesão é cística, sólida, ou quase sólida (≥ 80% de componente sólido)?
  • Há componente sólido? Ausente ou presente.
  • Quantos lóculos? Unilocular, bilocular ou multilocular.
  • As margens (da lesão ou do componente sólido) são lisas ou irregulares?
  • Se há componente sólido, ele é papilar? Menos de 4 projeções papilares, 4 ou mais projeções, ou componente sólido não papilar.
  • Qual o color score ao Doppler? De 1 a 4.
  • Qual o maior diâmetro?

Repare que nenhuma dessas perguntas admite “complexo” como resposta. É um léxico desenhado para não permitir a fuga.

Os descritores complementares

Além dos estruturais, alguns descritores auxiliam no reconhecimento de lesões típicas e devem constar da descrição quando presentes:

  • Sombra acústica posterior — sugere componente denso, característico do teratoma maduro e de alguns fibromas.
  • Ecos internos em suspensão — o vidro fosco do endometrioma.
  • Septações incompletas — septos que não atravessam completamente a lesão, achado típico da hidrossalpinge e do cisto de inclusão peritoneal.
  • Padrão reticular ou coágulo retraído — a assinatura do cisto hemorrágico.
  • Nódulo de Rokitansky, linhas e pontos hiperecogênicos, nível gordura-líquido — a constelação do dermoide.

O color score: um número, não um adjetivo

O escore de cor é frequentemente maltratado nos laudos, reduzido a “vascularizado” ou “pouco vascularizado”. No O-RADS ele é uma escala ordinal de 1 a 4, avaliada no componente sólido ou na parede/septo mais vascularizado:

  • Color score 1 — avascular, sem fluxo detectável.
  • Color score 2 — vascularização escassa (fluxo mínimo).
  • Color score 3 — vascularização moderada.
  • Color score 4 — vascularização intensa.

Há uma sutileza operacional que vale internalizar: o color score nem sempre decide alguma coisa. Em uma lesão cística unilocular sem componente sólido, o escore é 1 por definição — não há o que vascularizar. Já em uma lesão sólida, o escore é o que separa a categoria 3 da 4 e da 5. Saber quando o escore é decisório e quando é apenas descritivo evita tanto o excesso quanto a omissão.

As categorias: risco e conduta

O-RADS 0 — avaliação incompleta

Categoria pouco usada e útil. Aplica-se quando o exame é tecnicamente insuficiente para caracterizar a lesão — a paciente não tolerou o transvaginal, a janela era inadequada, a lesão não foi completamente visualizada. Reconhecer isso formalmente é melhor do que classificar mal. A conduta é repetir o exame em condições adequadas ou complementar por outro método.

O-RADS 1 — ovário normal (risco praticamente nulo)

Não é uma lesão: é o ovário fisiológico da paciente na pré-menopausa. Aqui entram o folículo (até 3 cm), o corpo lúteo e o corpo albicans. Nenhum deles é lesão, nenhum deles precisa ser classificado de 2 a 5, e nenhum deles justifica seguimento.

Um destaque para o corpo lúteo, que é responsável por um número desproporcional de encaminhamentos desnecessários: paredes espessas e regulares, com a vascularização periférica característica em anel de fogo ao Doppler. Um examinador que não reconhece o anel de fogo pode ler um corpo lúteo hemorrágico como uma lesão vascularizada de aspecto preocupante — e a paciente vai parar em uma ressonância. A regra prática mais útil aqui é temporal: o corpo lúteo é fisiológico e transitório, e um exame repetido em outra fase do ciclo resolve a dúvida sem custo nenhum.

Vale lembrar que, na pós-menopausa, folículo e corpo lúteo não existem. Uma imagem com essas características em uma paciente menopausada não é fisiológica e precisa ser reclassificada.

O-RADS 2 — quase certamente benigna (risco < 1%)

É a categoria das lesões benignas com aparência típica, e o teto de tamanho é 10 cm. Entram aqui:

  • Cisto simples — unilocular, anecoico, paredes finas e lisas, sem componente sólido, avascular.
  • Cisto hemorrágico — unilocular, com ecos internos em padrão reticular ou com coágulo retraído, avascular.
  • Endometrioma — unilocular, paredes lisas, finos ecos em suspensão (vidro fosco), sem componente sólido, avascular.
  • Teratoma maduro (dermoide) — componente ecogênico com sombra acústica, nódulo de Rokitansky, linhas e pontos hiperecogênicos, nível gordura-líquido, sem vascularização significativa.
  • Cisto paraovariano — extraovariano, unilocular, anecoico, com o ovário identificado separadamente.
  • Cisto de inclusão peritoneal — coleção que se molda às estruturas pélvicas, envolvendo o ovário sem deslocá-lo.
  • Hidrossalpinge — estrutura tubular anecoica com septações incompletas.
  • Lesão cística unilocular ou bilocular de paredes lisas, sem componente sólido, com menos de 10 cm.

A conduta na pré-menopausa é, em geral, nenhuma: são achados benignos que dispensam seguimento. Na pós-menopausa, o limiar é mais conservador — controle ultrassonográfico conforme o tipo e as dimensões, a critério clínico.

Vale notar a lógica de fundo: quando uma lesão típica ultrapassa 10 cm, ela sobe para O-RADS 3. Não porque tenha mudado de natureza, mas porque o tamanho reduz a confiança na tipificação e passa a ter implicação própria (risco de torção, sintomas compressivos, dificuldade de caracterização completa).

O-RADS 3 — risco baixo (aproximadamente 1% a 10%)

É a categoria do indeterminado de baixo risco. Entram aqui:

  • Lesão cística unilocular de margens irregulares, sem componente sólido.
  • Lesão cística unilocular ou bilocular de paredes lisas com 10 cm ou mais.
  • Lesão cística multilocular de margens lisas, sem componente sólido, com menos de 10 cm e color score de 1 a 3.
  • Lesão sólida de margens lisas com color score 1.
  • Qualquer lesão típica (endometrioma, dermoide, hemorrágico) acima de 10 cm.

A conduta: controle ultrassonográfico ou complementação por ressonância magnética, considerando avaliação por ultrassonografista com expertise em massas anexiais. Na pós-menopausa, o limiar para complementar e encaminhar é menor.

Uma observação sobre a lesão sólida com color score 1 — ela cai em O-RADS 3, o que às vezes surpreende. É a categoria típica do fibroma ovariano: sólido, de margens lisas, com sombra acústica e praticamente avascular. É sólido, mas é benigno, e o escore de cor é o que sustenta essa leitura.

O-RADS 4 — risco intermediário (aproximadamente 10% a 50%)

Aqui a lesão passa a exigir avaliação especializada. Entram:

  • Lesão cística unilocular com componente sólido e menos de 4 projeções papilares.
  • Lesão cística unilocular com componente sólido não papilar e color score 1 ou 2.
  • Lesão cística multilocular sem componente sólido com 10 cm ou mais, ou com color score 4.
  • Lesão cística multilocular de margens irregulares sem componente sólido.
  • Lesão cística bilocular ou multilocular com componente sólido e color score 1 ou 2.
  • Lesão sólida de margens lisas com color score 2 ou 3.

Conduta: ressonância magnética e/ou avaliação especializada em ginecologia, considerando encaminhamento à ginecologia oncológica.

O-RADS 5 — risco alto (aproximadamente 50% ou mais)

  • Lesão cística unilocular com componente sólido e 4 ou mais projeções papilares.
  • Lesão cística unilocular com componente sólido não papilar e color score 3 ou 4.
  • Lesão cística bilocular ou multilocular com componente sólido e color score 3 ou 4.
  • Lesão sólida de margens irregulares, independentemente do color score.
  • Lesão sólida de margens lisas com color score 4.
  • Presença de ascite e/ou implantes peritoneais — e este é o critério que se sobrepõe a todos os outros.

Conduta: avaliação em ginecologia oncológica; a ressonância pode auxiliar no planejamento terapêutico.

Dois atalhos merecem destaque porque simplificam a decisão na prática. O primeiro: em lesão sólida, margem irregular leva direto ao 5 — o color score não resgata. O segundo: ascite e implantes peritoneais são O-RADS 5 por si, independentemente de como a lesão anexial se caracterize. Nenhum descritor da massa desfaz esses dois achados.

Pré e pós-menopausa: o que muda e o que não muda

Há um mal-entendido frequente aqui. O status menopausal não altera os critérios de classificação — a árvore de decisão é a mesma, os descritores são os mesmos, os cortes de tamanho são os mesmos. O que muda é a leitura clínica em volta:

  • Achados fisiológicos deixam de existir. Folículo e corpo lúteo são incompatíveis com a pós-menopausa; a mesma imagem que seria O-RADS 1 aos 30 anos precisa ser classificada aos 60.
  • O limiar de conduta é menor. Um O-RADS 2 que dispensaria seguimento na pré-menopausa passa a merecer controle conforme tipo e dimensões. Um O-RADS 3 tem limiar mais baixo para complementação e avaliação especializada.
  • O volume ovariano de referência cai. Aproximadamente 10 cm³ na menacme contra cerca de 5 cm³ na pós-menopausa — o que muda o que se considera um ovário aumentado.
  • A probabilidade pré-teste sobe. A mesma categoria carrega uma preocupação clínica maior, ainda que o risco tabelado seja o mesmo.

É um desenho defensável: a categoria descreve a imagem; o contexto modula a conduta. Mas exige que o laudo informe o status menopausal — sem ele, a recomendação fica no ar.

O que fazer com o cistadenoma

Vale um parágrafo sobre a lesão que mais frequentemente vira “cisto complexo”: o cistadenoma. O cistadenoma seroso costuma ser unilocular, de paredes finas e anecoico — e cai confortavelmente em O-RADS 2 quando tem menos de 10 cm. O mucinoso é tipicamente multilocular, por vezes volumoso, com conteúdo de ecogenicidade variável entre os lóculos — e cai em O-RADS 3 ou 4 conforme tamanho, color score e presença de componente sólido.

O ponto é que nenhum dos dois precisa da palavra “complexo”. O léxico dá conta: número de lóculos, presença de componente sólido, margens, color score, tamanho. Descrito assim, o cistadenoma mucinoso volumoso sai como O-RADS 3 com recomendação de complementação — que é exatamente a conduta correta e exatamente o que “cisto complexo” não comunica.

Armadilhas do laudo de massas anexiais

  • Escrever “cisto complexo” — o termo não tem risco associado, não tem conduta e transfere a decisão para quem não viu a imagem.
  • Classificar o corpo lúteo — é fisiológico; o anel de fogo é a assinatura, e repetir em outra fase do ciclo resolve a dúvida.
  • Omitir o maior diâmetro — sem a medida, a categoria não pode ser atribuída. É melhor não classificar do que chutar.
  • Reportar “vascularizado” em vez do color score — o escore de 1 a 4 é um critério da classificação, não um adjetivo.
  • Não contar as projeções papilares — menos de 4 é O-RADS 4; 4 ou mais é O-RADS 5. É uma contagem, não uma impressão.
  • Ignorar ascite e implantes — eles são O-RADS 5 por si e se sobrepõem a qualquer descritor da massa.
  • Deixar de classificar por lesão — quando há mais de uma, cada lesão tem sua categoria, e a conduta deve contemplar todas as categorias presentes, não só a maior.
  • Descrever endometrioma como “cisto com conteúdo espesso” — ele tem descrição típica e categoria própria.
  • Não informar o status menopausal — sem ele, a recomendação não pode ser calibrada.
  • Classificar sem citar os descritores que sustentam a categoria — um laudo que diz “O-RADS 4” sem descrever por quê não permite auditoria nem segunda opinião.

Como o Laudário ajuda a classificar massas anexiais

O Laudário integra o O-RADS ao módulo de ovários do laudo pélvico transvaginal, com a classificação derivada automaticamente dos descritores — e não escolhida à mão. Na prática, isso significa:

  • Léxico completo em campos dedicados: tipo de lesão, componente sólido, loculação, margens, projeções papilares, color score, sombra acústica, ecos em suspensão e septações incompletas. Sem espaço para “complexo”.
  • Categoria O-RADS calculada automaticamente a partir da combinação dos descritores e do maior diâmetro, seguindo a árvore de decisão do ACR — incluindo os atalhos de margem irregular em lesão sólida e o corte de 10 cm.
  • Campos que aparecem apenas quando são decisórios: em lesão cística unilocular sem componente sólido, o color score é fixado em 1 automaticamente; em lesão multilocular com componente sólido, o campo de papilas é ocultado porque não altera o resultado. Menos cliques, menos ruído, menos erro.
  • Lesões típicas com frases prontas e categoria automática — cisto simples, hemorrágico (reticular ou coágulo retraído), endometrioma, dermoide com todos os seus descritores, paraovariano, cisto de inclusão peritoneal e hidrossalpinge — todas com o corte de 10 cm aplicado sozinho.
  • Achados fisiológicos tratados como tal: folículo, corpo lúteo (com o anel de fogo descrito) e corpo albicans não recebem categoria, e são automaticamente bloqueados quando a paciente é registrada como menopausada.
  • Recomendações emitidas por categoria presente, com texto ajustado ao status menopausal, incluindo o menor limiar de complementação na pós-menopausa.
  • Adicionador dinâmico de lesões, com classificação independente por lesão e por ovário, e agregação automática das categorias no bloco de recomendações.
  • Sem medida, sem categoria: o sistema não atribui O-RADS quando o diâmetro não foi informado, em vez de arriscar um palpite.
  • Suporte da LaudarIA, a inteligência artificial integrada, para ajudar na redação de casos difíceis — lesões multiloculadas volumosas, achados bilaterais ou pacientes em seguimento.

O resultado é um laudo que o ginecologista consegue usar imediatamente: a lesão descrita pelos descritores certos, a categoria derivada deles e a conduta associada, tudo no mesmo documento. Em uma área em que a decisão oscila entre não fazer nada e encaminhar à oncologia, essa cadeia explícita entre descritor, categoria e conduta é o que protege a paciente das duas pontas do erro.

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