Ovários policísticos no ultrassom: os critérios atualizados e como laudar sem alarmar
A morfologia ovariana é só um dos três critérios da SOP. Os 20 folículos por ovário, o volume de 10 mL, a fase do ciclo, as adolescentes e como escrever o achado sem chamar folículo de cisto.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom ginecológico: o guia completo, do útero aos ovários.
"Ovários policísticos" é uma das expressões mais escritas nos laudos de ultrassom pélvico, e uma das que mais geram confusão. Para a paciente, soa como doença grave e "cistos". Para o ginecologista, só tem valor se seguir o critério certo, porque a morfologia ovariana é apenas um dos três critérios da síndrome dos ovários policísticos (SOP), e ela sozinha não faz o diagnóstico.
Este texto mostra como contar os folículos, medir o volume, aplicar os critérios atualizados e escrever o achado de forma correta e sem alarme.
A SOP e onde entra o ultrassom
Pelos critérios de Rotterdam, a SOP é diagnosticada com dois de três achados, excluídas outras causas:
- Oligo ou anovulação (ciclos irregulares).
- Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial.
- Morfologia de ovários policísticos ao ultrassom.
Ou seja, o ultrassom entrega um critério, não o diagnóstico. Por isso o laudo deve descrever a morfologia, e não concluir "síndrome dos ovários policísticos". A diretriz internacional de 2023 também reforçou que, em adolescentes (nos primeiros 8 anos após a menarca), a morfologia ovariana não deve ser usada para o diagnóstico, porque ovários multifoliculares são normais nessa fase.
Os critérios de morfologia
Com transdutores de alta frequência (8 MHz ou mais) por via transvaginal, a diretriz internacional atual considera morfologia de ovários policísticos:
- Contagem de folículos por ovário de 20 ou mais (folículos de 2 a 9 mm), em pelo menos um ovário; ou
- Volume ovariano de 10 mL ou mais, em pelo menos um ovário, na ausência de cisto, corpo lúteo ou folículo dominante.
O antigo corte de 12 folículos foi abandonado com a melhora da resolução dos aparelhos, porque ovários normais passaram a ultrapassá-lo. Quando o exame é por via abdominal, a contagem é pouco confiável e o volume ganha peso.
Como medir
- Volume: três diâmetros ortogonais multiplicados por 0,523 (fórmula do elipsoide). Registrar o volume de cada ovário.
- Contagem de folículos: varrer o ovário inteiro, contando todos os folículos de 2 a 9 mm. Um erro comum é contar apenas os de um corte.
- Fase do ciclo: idealmente na fase folicular precoce, entre o 3º e o 5º dia. Um folículo dominante (acima de 10 mm) ou um corpo lúteo aumenta o volume e invalida o critério de volume naquele ovário; nesse caso, o laudo deve dizer isso e a avaliação pode ser repetida.
- Anticoncepcional hormonal: reduz o volume e a contagem, o que também deve constar como limitação.
Outros achados que ajudam
Alguns elementos descritivos são comuns nos ovários com morfologia policística e podem ser registrados:
- Folículos distribuídos na periferia, em "colar de pérolas".
- Estroma central aumentado e hiperecogênico.
Eles apoiam o achado, mas não substituem a contagem e o volume, que são os critérios objetivos.
Como escrever sem alarmar
A palavra "cistos" para folículos é um erro frequente e gera ansiedade desnecessária. Folículos são estruturas normais. Uma redação adequada:
- Descreve volume e contagem de cada ovário.
- Conclui com "ovários com morfologia policística" quando os critérios são atingidos, e não com o diagnóstico da síndrome.
- Recomenda correlação clínica e laboratorial, na aba de recomendações.
E, quando a contagem é alta mas o volume é normal, ou o contrário, vale dizer qual critério foi atingido.
Contagem de folículos antrais e reserva ovariana
A mesma contagem tem outro uso: a contagem de folículos antrais (CFA), somada nos dois ovários, estima a reserva ovariana em pacientes em avaliação de fertilidade. CFA alta é típica da morfologia policística e se associa a risco de síndrome de hiperestímulo em tratamentos de reprodução assistida, informação útil para o especialista.
Erros comuns
- Concluir "síndrome dos ovários policísticos" pelo ultrassom.
- Usar o corte de 12 folículos.
- Medir volume com folículo dominante ou corpo lúteo presente.
- Chamar folículos de cistos.
- Aplicar o critério em adolescentes.
Veja também o nosso texto sobre o laudo pélvico transvaginal.
Como o Laudário ajuda
Nos modelos de pelve feminina e de reserva ovariana do Laudário:
- Volume ovariano calculado automaticamente a partir dos três diâmetros.
- Contagem de folículos por ovário e contagem de folículos antrais.
- Morfologia policística descrita pelos critérios, sem transformar o achado em diagnóstico.
- Recomendações em aba própria.
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