Torção ovariana no ultrassom: os sinais que importam e por que o Doppler normal não a exclui
Ovário aumentado e edemaciado, folículos periféricos, sinal do redemoinho e massa associada: os achados que sustentam a suspeita, as armadilhas do Doppler e como redigir um laudo de urgência.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom ginecológico: o guia completo, do útero aos ovários.
A torção ovariana é uma emergência em que o tempo até a cirurgia define se o ovário será preservado. O ultrassom é o primeiro exame, e o laudo precisa ser claro: sustenta ou não a suspeita. O erro mais perigoso é tranquilizar a equipe porque "há fluxo ao Doppler".
Os achados que sustentam a suspeita
- Ovário aumentado, com volume claramente maior que o contralateral. É o achado mais consistente.
- Estroma edemaciado e heterogêneo, com folículos deslocados para a periferia.
- Massa associada, que funciona como ponto de alavanca: cistos funcionais, teratoma maduro e outras lesões anexiais, em geral acima de 5 cm.
- Sinal do redemoinho: o pedículo vascular torcido, visto como estrutura arredondada em espiral, com os vasos girando ao Doppler. É um dos sinais mais específicos.
- Posição anômala do ovário, por exemplo na linha média ou acima do útero.
- Líquido livre na pelve.
O Doppler: presença de fluxo não exclui torção
O ovário tem dupla irrigação, pelas artérias ovariana e uterina, e a torção pode ser parcial ou intermitente. Por isso, fluxo arterial e venoso preservados são descritos em uma parcela importante das torções confirmadas na cirurgia. A ausência de fluxo venoso, ou de qualquer fluxo, reforça muito a suspeita, mas a presença de fluxo não afasta o diagnóstico quando a clínica e a morfologia apontam para torção.
Situações especiais
- Crianças e adolescentes: a torção pode ocorrer em ovário sem lesão associada.
- Gestantes: o risco é maior no primeiro trimestre, em especial com cisto do corpo lúteo volumoso ou após indução da ovulação.
- Hiperestimulação ovariana: ovários muito aumentados por múltiplos cistos têm risco aumentado de torção.
O que escrever
- Volume dos dois ovários, para a comparação.
- Aspecto do estroma, distribuição dos folículos e massa associada, com medidas.
- Presença ou não do sinal do redemoinho.
- Doppler arterial e venoso, descrito como achado, sem conclusão de "torção afastada".
- Na impressão, quando os achados sustentam a suspeita: "achados compatíveis com torção anexial", com recomendação de avaliação ginecológica de urgência.
Achados de urgência devem ser comunicados diretamente à equipe assistente, além de constarem no laudo.
Erros comuns
- Concluir "sem sinais de torção" porque há fluxo ao Doppler.
- Não medir o ovário contralateral.
- Descrever a massa anexial e esquecer de avaliar o pedículo.
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