Ultrassom intestinal: técnica, espessura da parede, doença de Crohn e diverticulite
Como examinar as alças no ultrassom intestinal, quais pontos de corte de espessura usar, o que descrever na doença de Crohn, os critérios de diverticulite e os limites do método em relação à tomografia.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom de abdome: o guia dos achados que realmente mudam conduta.
O ultrassom intestinal avalia diretamente a parede das alças, e o parâmetro central é a espessura: na doença de Crohn, a diretriz da EFSUMB usa acima de 3 mm quando se quer alta sensibilidade e acima de 4 mm quando se quer alta especificidade. Espessura, porém, não é diagnóstico. O laudo útil diz qual segmento está alterado, em que extensão e com quais sinais associados.
Técnica do ultrassom intestinal
- Dois transdutores: baixa frequência para a visão geral e para segmentos profundos ou pacientes obesos; acima de 5 MHz para medir a parede, cujas camadas costumam ter menos de 1 mm.
- Compressão gradual: a alça normal comprime com facilidade; a alça doente, pouco.
- Varredura sistemática dos quadrantes, com referências anatômicas: músculo iliopsoas e vasos ilíacos ajudam a achar o íleo terminal à direita e o sigmoide à esquerda.
- Medida da parede com o feixe perpendicular, em trecho representativo, da interface lúmen-mucosa até a serosa.
- Doppler colorido ou de amplitude para a vascularização, e harmônica quando disponível.
Espessura da parede e estratificação
A parede normal tem cinco camadas de ecogenicidade alternada. Os pontos de corte variam entre as fontes:
- Delgado normal: abaixo de 2 mm é a referência atribuída à EFSUMB em revisões; 3 mm é o corte mais adotado para atividade.
- Crohn, numa meta-análise de 15 estudos: 3 mm teve sensibilidade de 89% e especificidade de 96%; 4 mm, 87% e 98%.
- Diverticulite: os estudos usam acima de 4 ou de 5 mm no segmento com divertículo.
Doença de Crohn
- Estratificação: espessamento com perda das camadas se associa a maior risco de cirurgia.
- Doppler: a escala de Limberg vai de 1 (sem sinal) a 4 (sinal na parede e no mesentério); acima de 2 é considerado patológico.
- Gordura inflamatória: gordura mesentérica hipertrofiada envolvendo a alça.
- Estenose: estreitamento com dilatação a montante.
- Trajetos e abscessos: trajeto hipoecoico, às vezes com ar; abscesso como coleção fora da parede, cercada de gordura inflamada. Fístulas complexas pedem enterografia.
No seguimento, o consenso internacional de 2025 define resposta como queda de pelo menos 25% na espessura em relação ao exame inicial, ou melhora combinada de espessura com Doppler ou outro parâmetro. Por isso, o laudo deve trazer o valor anterior.
Diverticulite
Os critérios mais usados são divertículo inflamado com dor à compressão, parede espessada no segmento e gordura pericólica ecogênica. Uma meta-análise de 2025 (12 estudos) encontrou sensibilidade de 92,5% e especificidade de 87,7%. A meta-análise da diretriz coreana KASID achou 85% e 98% para o ultrassom, contra 96% e 98% da tomografia.
As diretrizes divergem no papel do método. A KASID recomenda a tomografia como exame de escolha e o ultrassom com examinador experiente quando ela é limitada. A EFSUMB coloca o ultrassom como base da avaliação e a tomografia como apoio, sobretudo no sigmoide distal, na inflamação profunda da pelve e com janela ruim.
O que o laudo deve trazer
- Segmento, extensão e maior espessura, com a comparação ao exame anterior.
- Estratificação, Doppler e gordura adjacente.
- Estenose, dilatação a montante, trajetos e coleções.
- Na diverticulite: segmento, divertículo envolvido, gordura, coleção e líquido livre.
- Segmentos não avaliados e o motivo.
Erros comuns
- Escrever "alças sem alterações" sem ter avaliado o íleo terminal e o sigmoide.
- Medir a parede em alça contraída sem reavaliar o peristaltismo.
- Dar espessamento como Crohn sem clínica ou confirmação.
- Não citar a limitação na pelve profunda.
- Omitir a medida anterior no seguimento.
Veja também os textos sobre ultrassom na apendicite e o guia do ultrassom de abdome.
Como o Laudário ajuda
O Laudário não tem um modelo dedicado de ultrassom intestinal com escores de atividade. Nos modelos de abdome total, a aba de alças intestinais traz:
- Doença de Crohn com localização, espessamento, gordura rastejante, estenose e hiperemia.
- Diverticulite com segmento, extensão, espessura, gordura e abscesso.
- Apêndice e fossa ilíaca direita no mesmo lugar, além de apendagite e adenite mesentérica.
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Referências
- Maconi G, et al. EFSUMB Guidelines for GIUS in Inflammatory Bowel Diseases. Ultraschall Med 2018.
- Nylund K, et al. EFSUMB Recommendations and Guidelines for Gastrointestinal Ultrasound. Part 1: Examination Techniques and Normal Findings. Ultraschall Med 2017;38:273-284.
- Kucharzik T, et al. Intestinal ultrasound and management of small bowel Crohn's disease. Therap Adv Gastroenterol 2018;11.
- Dirks K, et al. EFSUMB Position Paper: Recommendations for GIUS in Acute Appendicitis and Diverticulitis. Ultraschall Med 2019;40:163-175.
- Lee, et al. KASID clinical practice guidelines for acute colonic diverticulitis. Intest Res 2026;24.