Laudário

Quantificação de gordura hepática por ultrassom: ATI, UGAP, UDFF e como laudar

Como funcionam as técnicas de quantificação de gordura hepática por ultrassom, o protocolo de aquisição que torna o número confiável, por que os pontos de corte variam por fabricante e o que o laudo precisa registrar.

LaudárioLaudos de ultrassom na prática 6 de outubro de 2026 4 min de leitura

Este artigo faz parte do guia Ultrassom de abdome: o guia dos achados que realmente mudam conduta.

A graduação da esteatose pelo modo B (leve, moderada, acentuada) é subjetiva e varia entre examinadores. As técnicas de quantificação de gordura por ultrassom trocam essa impressão por um número, medido de forma reprodutível e comparável entre exames. Mas o número só vale se a aquisição seguir protocolo e se o laudo disser como ele foi obtido.

O que cada técnica mede

A gordura no fígado aumenta a atenuação do feixe acústico e altera o espalhamento (backscatter). Cada fabricante implementou isso de um jeito, com nome e unidade próprios:

  • Canon - ATI (Attenuation Imaging): coeficiente de atenuação em dB/cm/MHz.
  • GE - UGAP (Ultrasound-Guided Attenuation Parameter): atenuação em dB/cm/MHz.
  • Siemens - UDFF (Ultrasound-Derived Fat Fraction): estimativa da fração de gordura em porcentagem, combinando atenuação e espalhamento.
  • Samsung - TAI e TSI (Tissue Attenuation e Tissue Scatter-distribution Imaging), que podem ser combinados num índice próprio.
  • Philips e outros: parâmetros de atenuação com nomes comerciais diferentes.

Todas foram validadas contra a fração de gordura por ressonância (MRI-PDFF), que é a referência não invasiva. Na MRI-PDFF, valores a partir de cerca de 5% indicam esteatose.

Por que os pontos de corte não são intercambiáveis

Um valor de ATI não pode ser comparado com um de UGAP, e nenhum dos dois com o CAP do FibroScan, mesmo quando a unidade é a mesma. Os algoritmos são diferentes e os pontos de corte publicados também. Por isso o laudo precisa citar a tecnologia, o valor com a unidade e o ponto de corte usado, com a referência. E o seguimento do paciente deve ser feito, sempre que possível, no mesmo equipamento.

O protocolo que torna o número confiável

  • Jejum de algumas horas: o estado pós-prandial pode alterar os valores.
  • Paciente em decúbito dorsal, braço direito elevado, acesso intercostal ao lobo direito.
  • Região de interesse posicionada a cerca de 2 cm da cápsula hepática, longe de vasos, ductos e artefatos de reverberação.
  • Medidas em apneia breve, em respiração neutra.
  • Em geral, 5 medidas válidas, com o resultado expresso pela mediana.
  • Respeitar o índice de qualidade de cada fabricante (coeficiente de determinação, dispersão ou equivalente). Medida abaixo do limiar de qualidade não deve entrar no cálculo.

Fatores que atrapalham

  • Obesidade acentuada e janela acústica ruim.
  • Fibrose avançada, inflamação e doenças de depósito podem interferir na atenuação.
  • Lesão focal na região de aquisição.
  • Ascite volumosa.

Quando presentes, devem ser citados no laudo, porque mudam a confiança no número.

O que o laudo deve trazer

  • Fabricante, tecnologia e, se possível, modelo do equipamento.
  • Condições de aquisição: janela adequada ou limitada, número de medidas válidas, lobo avaliado, distância da cápsula e confirmação do jejum.
  • Valor (mediana) com a unidade e o índice de qualidade.
  • Graduação segundo a tabela do fabricante, com a referência.
  • Comparação com exames anteriores, quando houver, de preferência numa tabela evolutiva.

Erros comuns

  • Informar o valor sem a tecnologia e a unidade.
  • Usar o ponto de corte de um fabricante para o equipamento de outro.
  • Calcular a mediana incluindo medidas com qualidade abaixo do limiar.
  • Não citar que o jejum não foi confirmado.
  • Comparar exames feitos em equipamentos diferentes como se fossem a mesma medida.

Veja também os nossos textos sobre esteatose hepática no modo B e sobre elastografia hepática.

Como o Laudário ajuda

Tela do Laudário: quantificação de gordura hepática
No Laudário: quantificação de gordura hepática. Os achados marcados à esquerda viram o texto do laudo à direita.

No modelo de quantificação de gordura hepática do Laudário, que também pode ser incluído nos laudos de abdome:

  • Tecnologia por fabricante (Samsung, GE, Canon, Siemens, Philips), com a frase da técnica pronta.
  • Número de medidas, lobo avaliado e distância da cápsula em campos próprios.
  • Valor e índice de qualidade, com aviso quando a qualidade fica abaixo do limiar.
  • Classificação automática e tabela evolutiva entre exames.

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