Ultrassom de baço e linfonodos abdominais: esplenomegalia, lesões focais e o que medir
Como medir o baço e relacionar a esplenomegalia com o resto do exame, diferenciar baço acessório de nódulo, descrever infarto, abscesso e linfoma e medir linfonodos pelo eixo curto.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom de abdome: o guia dos achados que realmente mudam conduta.
O baço costuma ocupar uma linha do laudo de abdome: "baço de dimensões e ecotextura habituais". Na maioria das vezes está certo. Mas quando ele está aumentado, quando aparece um nódulo ou quando há linfonodos no abdome, o laudo precisa de medidas, de critérios e de contexto, porque esses achados apontam para doenças sistêmicas, como hipertensão portal, doenças hematológicas, infecções e linfoma.
Este texto organiza a avaliação do baço e dos linfonodos abdominais e mostra como escrever cada achado de forma útil.
Como medir o baço
A medida mais usada é o comprimento longitudinal (maior eixo), obtido em corte coronal pelo intercostal esquerdo, com o paciente em decúbito lateral direito. Referências práticas no adulto:
- Até cerca de 12 cm: normal.
- Entre 12 e 13 cm: limítrofe, a interpretar conforme o biotipo e a altura (homens altos podem ter baço maior sem doença).
- Acima de 13 cm: esplenomegalia.
Alguns serviços usam também o índice esplênico (produto dos três diâmetros) ou o volume estimado, mais reprodutíveis no seguimento. Qualquer que seja o método, o laudo deve trazer o número, e não apenas "baço aumentado". Em crianças, a referência é a tabela por idade.
Esplenomegalia: a pista está no resto do exame
A esplenomegalia raramente é um achado isolado. O laudo ganha valor quando relaciona o baço aumentado com os outros achados:
- Hipertensão portal: fígado de contornos irregulares, veia porta dilatada, fluxo portal lentificado ou hepatofugal, circulação colateral, ascite. Veja o nosso texto sobre Doppler hepático e hipertensão portal.
- Doenças hematológicas: esplenomegalias volumosas são típicas de doenças mieloproliferativas e alguns linfomas.
- Infecções: mononucleose, malária, leishmaniose visceral, esquistossomose (nesta, com fibrose periportal característica).
- Doenças de depósito e congestão por insuficiência cardíaca.
Na mononucleose, vale uma frase de alerta sobre o risco de ruptura esplênica, que orienta a restrição a esportes de contato.
Baço acessório e variantes
O baço acessório (esplenúnculo) é muito comum: um nódulo arredondado, homogêneo, com a mesma ecogenicidade do baço, geralmente junto ao hilo esplênico, com vascularização vinda da artéria esplênica. Descrever como baço acessório, com a medida, evita que seja confundido com linfonodo ou lesão da cauda do pâncreas.
Outras variantes: o baço lobulado, com fendas que simulam laceração, e o baço errante, raro, com risco de torção.
Lesões focais
- Cistos: anecoicos, com parede fina e reforço posterior. Os verdadeiros são congênitos; os falsos (pseudocistos), pós-traumáticos, às vezes com calcificação parietal.
- Hemangioma: o tumor benigno mais comum, geralmente hiperecogênico e bem delimitado.
- Infarto esplênico: área hipoecoica em forma de cunha, com base na cápsula e sem fluxo ao Doppler. Pensar em embolia, doenças hematológicas e endocardite.
- Abscesso: lesão hipoecoica ou complexa, com debris, em paciente com febre. Mais comum em imunossuprimidos e na endocardite.
- Microabscessos fúngicos: múltiplas lesões pequenas, às vezes com o aspecto em "alvo".
- Linfoma: o baço pode estar só aumentado ou ter lesões hipoecoicas, de pequenas e múltiplas a grandes e confluentes.
- Metástases: incomuns, geralmente em doença disseminada.
Para as lesões sólidas indeterminadas, a recomendação de tomografia ou ressonância faz parte do laudo. Para as calcificações pequenas e isoladas (granulomas), basta descrever.
Trauma
No trauma abdominal, o ultrassom à beira do leito procura líquido livre (o protocolo FAST inclui a janela esplenorrenal). A avaliação do parênquima é limitada: lacerações e hematomas podem não ser vistos. O laudo deve deixar claro que a ausência de lesão visível não afasta lesão esplênica, e que a tomografia é o exame de referência no paciente estável.
Linfonodos abdominais
O abdome tem cadeias linfonodais que, em condições normais, raramente são vistas ao ultrassom. Por isso, linfonodos visíveis merecem descrição:
- Localização: periportais, peripancreáticos, mesentéricos, retroperitoneais (paraórticos, aortocavais, paracavais), ilíacos.
- Tamanho: o parâmetro é o eixo curto. Na maior parte das cadeias, acima de 10 mm é considerado aumentado.
- Morfologia: forma, presença de hilo, ecogenicidade, necrose.
- Conglomerados e envolvimento de vasos (linfonodos envolvendo a aorta e a mesentérica, o "sinal do sanduíche", sugerem linfoma).
Linfonodos periportais discretamente aumentados são comuns em hepatopatias crônicas e hepatites e, isolados, geralmente são reacionais.
Na criança com dor abdominal, a adenite mesentérica é um diagnóstico frequente: agrupamento de linfonodos no mesentério da fossa ilíaca direita (em geral três ou mais, com eixo curto a partir de 5 mm), com apêndice normal. O laudo deve informar se o apêndice foi visualizado.
Erros comuns
- Esplenomegalia sem a medida.
- Baço aumentado sem avaliar sinais de hipertensão portal.
- Baço acessório descrito como "nódulo" sem caracterização.
- Linfonodo medido pelo eixo longo.
- Trauma sem a ressalva de que o ultrassom não afasta lesão esplênica.
Como o Laudário ajuda
Nos modelos de abdome do Laudário, o baço tem aba própria, e há modelos de linfonodos e de FAST estendido (eFAST). Na prática:
- Esplenomegalia com maior eixo, medida transversal e índice esplênico.
- Baço acessório como achado próprio.
- Cistos, hemangiomas, abscessos, infarto e lesões em alvo com as frases prontas, incluindo lesões múltiplas.
- Recomendações em aba separada.
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