Laudário

Circular de cordão no ultrassom: como identificar, o que significa e como laudar sem alarmar

Como identificar a circular de cordão no ultrassom com Doppler colorido, o desempenho do exame, o que a literatura mostra sobre desfechos e como descrever o achado no laudo de forma objetiva.

LaudárioLaudos de ultrassom na prática 1 de novembro de 2026 4 min de leitura

Este artigo faz parte do guia Ultrassom obstétrico: o guia dos três trimestres, da datação ao Doppler.

A circular de cordão é a volta de 360 graus do cordão umbilical ao redor do pescoço fetal, presente em 22% dos nascimentos na meta-análise de Hayes (2020), e a maioria não se associa a morbidade ou mortalidade perinatal. Como é um achado comum e de valor preditivo limitado, o laudo deve descrevê-lo de forma objetiva, sem transformar uma variação frequente em motivo de alarme.

Como identificar a circular de cordão

  • Avaliar a região cervical em corte sagital e transversal, com Doppler colorido em escala adequada a fluxo lento.
  • Confirmar que o cordão contorna o pescoço. Cordão apenas encostado, sem completar a volta, não é circular completa.
  • Contar as voltas quando for possível separá-las.
  • Sinal do divot: impressão do cordão na pele da região posterior do pescoço, visível em escala de cinza no plano sagital. Não confundir com massas císticas posteriores, dobras de pele ou bolsões de líquido.

Desempenho do exame

  • Jauniaux 1992: sensibilidade do Doppler colorido de 79% contra 33% da escala de cinza, maior após 36 semanas (93% contra 67%, segundo a revisão de Peesay), e melhor para múltiplas voltas (94%) do que para volta única (72%).
  • Peregrine 2005: em 289 gestantes antes da indução, sensibilidade de 37,5%, especificidade de 80%, valor preditivo positivo de 29% e negativo de 85%.
  • Estudos menores mais recentes relatam sensibilidade do Doppler acima de 90%. Os números divergem bastante, e por isso um exame negativo não exclui a circular no parto.
  • O achado também muda com o tempo: há circulares de padrão deslizante, que podem se desfazer sozinhas. A frequência cresce com a idade gestacional, de cerca de 6% com 20 semanas a 29% com 42 semanas.

Significado clínico

  • Hayes 2020 não encontrou associação entre circular e natimortalidade (OR 1,11; IC 95% 0,62 a 1,98). Para múltiplas voltas, a estimativa foi de 2,36 (IC 95% 0,99 a 5,62), sem significância estatística. Os autores não puderam analisar circulares apertadas ou frouxas.
  • Nó verdadeiro é outro achado: associou-se a natimortalidade (OR 4,65; IC 95% 2,09 a 10,37).
  • Múltiplas voltas ocorreram em 4% dos nascimentos.
  • Peregrine 2005 não observou aumento de cesárea nem pior desfecho neonatal, e um estudo em gestações pós-termo não complicadas concluiu que a pesquisa antes da indução não foi necessária nem útil.
  • A revisão de Peesay lembra que a circular pode se relacionar a desacelerações variáveis e que circulares apertadas podem, em casos raros, ter repercussão neonatal. O tema segue controverso.

Como laudar sem alarmar

Descreva o que foi visto, em tom neutro, por exemplo: "Presença de circular completa de cordão cervical, com uma volta." Ao lado, registre o que realmente informa sobre o bem-estar fetal: movimentos, líquido amniótico, cordão de aspecto habitual e, quando realizado, Doppler. Evite palavras como "enforcamento" e "enrolado" e não associe o achado a risco de sofrimento fetal ou à via de parto: a conduta é do obstetra, considerando o conjunto do caso.

O que o laudo deve trazer

  • Presença ou ausência, se o serviço optar por citar.
  • Tipo: completa ou incompleta, e número de voltas quando determinável.
  • Impressão no subcutâneo cervical, se houver.
  • Vasos do cordão e outros achados, como nó verdadeiro suspeito.
  • Dados de vitalidade do exame.

Erros comuns

  • Laudar circular sem Doppler colorido.
  • Chamar de circular o cordão apenas próximo ao pescoço.
  • Afirmar "ausência de circular" como garantia para o parto.
  • Incluir na conclusão frases de risco sem base nos achados.
  • Confundir o sinal do divot com dobra de pele.

Veja também os textos sobre o laudo do terceiro trimestre, o Doppler obstétrico e o perfil biofísico fetal.

Como o Laudário ajuda

Na aba Cordão Umbilical do modelo obstétrico de 2º e 3º trimestres do Laudário:

  • A circular tem as opções não citar, ausente, incompleta e completa, com o número de voltas.
  • A impressão no subcutâneo cervical e o nó verdadeiro são campos próprios.
  • O texto sai em frase neutra e padronizada, inclusive na conclusão.

Teste por 15 dias grátis, sem cartão de crédito.

Referências

  • Hayes DJL, Warland J, Parast MM, et al. Umbilical cord characteristics and their association with adverse pregnancy outcomes: a systematic review and meta-analysis. PLoS One 2020;15:e0239630.
  • Peesay M. Nuchal cord and its implications. Matern Health Neonatol Perinatol 2017;3:28.
  • Jauniaux E, Mawissa C, Peellaerts C, Rodesch F. Nuchal cord in normal third-trimester pregnancy: a color Doppler imaging study. Ultrasound Obstet Gynecol 1992;2:417.
  • Peregrine E, O'Brien P, Jauniaux E. Ultrasound detection of nuchal cord prior to labor induction and the risk of Cesarean section. Ultrasound Obstet Gynecol 2005;25:160-164.
Escreva esse laudo em segundos. Modelos estruturados, cálculos e classificações automáticas. 15 dias grátis, sem cartão.
Testar grátis
Quem escreve Dr. Leander Maguetas CRM-SP 224546 · RQE 132630 · Ultrassonografia geral

Médico com RQE em ultrassonografia geral. Escreve no blog do Laudário sobre laudos, classificações e padronização. Quem escreve e como.

Conteúdo educativo para profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes adotadas pelo seu serviço. Política editorial.

Escreva o próximo laudo em segundos.

Modelos estruturados, cálculos e classificações automáticas, PACS e agenda com WhatsApp. 15 dias grátis, sem cartão.

Começar grátis agora Testar os simuladores Sem cartão · acesso imediato · suporte humano