Macrossomia fetal e feto grande para a idade gestacional no ultrassom: definição, limites do peso estimado e laudo
A diferença entre macrossomia fetal e feto grande para a idade gestacional, a margem de erro do peso estimado, a relação com polidrâmnio e diabetes e o que escrever no laudo sem ir além do que o exame sustenta.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom obstétrico: o guia dos três trimestres, da datação ao Doppler.
Macrossomia fetal é o peso acima de um corte fixo, em geral 4.000 ou 4.500 g no termo; já o feto grande para a idade gestacional (GIG) é o que ultrapassa um limite da curva para a sua idade, tipicamente o percentil 90 do peso estimado ou da circunferência abdominal. O ultrassom levanta a suspeita, mas a confirmação vem do peso ao nascer, e por isso o laudo deve trazer a estimativa com a sua margem de erro.
Macrossomia fetal ou GIG: qual a diferença
- GIG: a ISUOG descreve peso estimado (PFE) ou circunferência abdominal (CA) acima do percentil 90, lembrando que a literatura também usa percentil 95, percentil 97, +2 desvios-padrão e escore Z. O resultado depende da curva.
- Macrossomia: corte fixo de peso (4.000 ou 4.500 g), sem definição única entre as fontes.
- Os dois nem sempre coincidem: um feto de 34 semanas pode ser GIG muito abaixo de 4.000 g, e um de 40 semanas com 4.100 g passa do corte de 4.000 g, mas fica abaixo do percentil 90 de Hadlock (4.234 g) e da OMS (4.135 g).
Os limites do peso estimado
- A ISUOG registra erros de 10 a 15% como comuns, relativamente maiores justamente nos fetos pequenos e grandes. Com 15%, um PFE de 4.000 g corresponde a um intervalo de 3.400 a 4.600 g.
- Em meta-análise de populações de baixo risco e risco misto (Moraitis 2020), PFE acima de 4.000 g ou do percentil 90 e CA acima de 36 cm ou do percentil 90 tiveram sensibilidade acima de 50% para macrossomia ao nascer, com razão de verossimilhança positiva de 8,74 e 7,56.
- Para distocia de ombro o desempenho é bem menor: sensibilidade de 22% e razão de verossimilhança positiva de 2,12.
- O ACOG considera imprecisa a predição do peso, tanto por ultrassom quanto clínica.
- Exames seriados devem ter em geral pelo menos 3 semanas de intervalo, para reduzir falsos positivos (ISUOG).
Polidrâmnio e diabetes
O polidrâmnio é definido pela SMFM, em gestação única, por maior bolsão vertical de 8 cm ou mais ou índice de líquido amniótico de 24 cm ou mais. A mesma publicação aponta o diabetes materno e as anomalias fetais como as duas causas patológicas mais comuns, e a maioria dos casos leves como idiopática. Diante de feto grande com líquido aumentado, descreva os dois achados, revise a anatomia e deixe a correlação com a avaliação glicêmica registrada para o obstetra. O ACOG inclui a otimização do controle glicêmico entre as medidas relacionadas à macrossomia.
Via de parto: até onde vai o laudo
O ACOG refere que a cesárea programada pode trazer benefício com PFE acima de 5.000 g sem diabetes e de 4.500 g ou mais com diabetes, e que a suspeita de macrossomia não indica indução antes de 39 semanas. Os limites variam entre as fontes (Calderon 2006 cita de 4.000 a 5.000 g). Essa decisão é obstétrica e individual: o laudo informa o peso e seu limite de precisão, sem indicar via de parto.
O que o laudo deve trazer
- Medidas biométricas, PFE em gramas, percentil ou escore Z, fórmula e curva usadas.
- Percentil da CA, quando ele motivar a classificação.
- Margem de erro da estimativa.
- Líquido amniótico (maior bolsão vertical e/ou índice), com a classificação.
- Comparação com o exame anterior, respeitando o intervalo.
- Conclusão descritiva, por exemplo: "peso fetal estimado acima do percentil 90, caracterizando feto grande para a idade gestacional" ou "compatível com macrossomia fetal".
Erros comuns
- Usar GIG e macrossomia como sinônimos.
- Afirmar o peso como valor exato, sem margem de erro.
- Omitir a fórmula e a curva, o que impede comparar exames.
- Plotar o PFE em curva de peso de recém-nascido, o que a ISUOG desaconselha.
- Indicar via de parto ou prever distocia de ombro no laudo.
Veja também os textos sobre biometria fetal e peso estimado, líquido amniótico e laudo do terceiro trimestre.
Como o Laudário ajuda
No modelo obstétrico de 2º e 3º trimestres do Laudário:
- O texto do peso sai com a fórmula de Hadlock usada, as medidas e a margem de 15%.
- A conclusão pode classificar o percentil, incluindo feto GIG e macrossomia (PFE de 4.000 g ou mais e/ou CA acima do percentil 95).
- O líquido amniótico é classificado pelo índice e pelo maior bolsão, com opção de graduar o polidrâmnio.
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Referências
- Salomon LJ, et al. ISUOG Practice Guidelines: ultrasound assessment of fetal biometry and growth. Ultrasound Obstet Gynecol 2019;53:715-723.
- Macrosomia: ACOG Practice Bulletin No. 216. Obstet Gynecol 2020;135:e18-e35.
- Moraitis AA, Shreeve N, Sovio U, et al. Universal third-trimester ultrasonic screening using fetal macrosomia in the prediction of adverse perinatal outcome. PLoS Med 2020;17:e1003190.
- SMFM Consult Series #46: Evaluation and management of polyhydramnios. Am J Obstet Gynecol 2018;219:B2-B8.
- Calderon IMP, Rudge MVC. Macrossomia fetal: um desafio obstétrico. Rev Bras Ginecol Obstet 2006;28:211.