Ultrassom de mão e punho: De Quervain, dedo em gatilho, cisto sinovial e túnel do carpo
As quatro queixas que respondem pela maior parte dos pedidos de ultrassom de mão e punho e o que o laudo precisa ter em cada uma: o septo do De Quervain, a polia A1, a origem do cisto e a área do nervo mediano.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom musculoesquelético: o guia completo, articulação por articulação.
Mão e punho concentram, num espaço de poucos centímetros, dezenas de tendões, polias, ligamentos, nervos e articulações. É justamente essa densidade que faz do ultrassom o método de escolha para a maioria das queixas: resolução espacial alta, avaliação dinâmica com o paciente mexendo o dedo que dói e comparação imediata com o lado oposto.
O problema costuma estar no laudo. "Tenossinovite dos flexores" sem dizer qual dedo, qual polia e qual espessura; "cisto sinovial" sem a origem; "túnel do carpo normal" sem a área do nervo. Este texto organiza as quatro queixas que respondem pela maior parte dos pedidos (De Quervain, dedo em gatilho, cisto sinovial e túnel do carpo) e o que cada uma precisa ter escrito para ser útil ao cirurgião de mão e ao reumatologista.
Como organizar o exame
A forma mais segura de não esquecer estruturas é seguir a anatomia por compartimentos, sempre na mesma ordem:
- Face dorsal do punho: os seis compartimentos extensores, do radial (I) ao ulnar (VI), com o tubérculo de Lister como referência entre o II e o III.
- Face volar do punho: túnel do carpo (nervo mediano e nove tendões flexores), canal de Guyon (nervo e artéria ulnares) e o tendão flexor radial do carpo.
- Dedos: tendões flexores superficial e profundo, polias anulares (A1 a A5) e aparelho extensor.
- Articulações: radiocárpica, intercárpicas, metacarpofalângicas e interfalângicas, com atenção a derrame e sinovite.
- Ligamentos: escafolunar dorsal e, no polegar, o colateral ulnar da metacarpofalângica.
O laudo que segue essa ordem é mais fácil de ler e, principalmente, deixa claro o que foi avaliado. "Demais compartimentos extensores sem alterações" diz ao médico assistente que eles foram olhados.
Tenossinovite de De Quervain
É a tenossinovite do primeiro compartimento extensor, onde correm o abdutor longo e o extensor curto do polegar, sobre o processo estiloide do rádio. Clinicamente é a dor radial do punho que piora com o teste de Finkelstein, comum em puérperas e em quem usa muito o polegar.
Os achados ecográficos:
- Espessamento do retináculo do primeiro compartimento, hipoecoico, frequentemente com hiperemia ao Doppler.
- Espessamento dos tendões e líquido na bainha.
- Comparação com o lado contralateral, que ajuda muito nos casos discretos.
O detalhe que mais agrega valor ao laudo é o septo intracompartimental. Em uma parcela relevante das pessoas, um septo fibroso divide o primeiro compartimento em dois subcompartimentos. A presença do septo muda a infiltração guiada (é preciso atingir os dois lados) e a cirurgia (os dois túneis precisam ser liberados). Escrever "presença de septo intracompartimental" ou "sem septo identificado" é informação que o cirurgião usa.
Dedo em gatilho
O dedo em gatilho é um conflito entre o tendão flexor e a polia A1, na altura da cabeça do metacarpo. O ultrassom mostra:
- Polia A1 espessada e hipoecoica, muitas vezes com hiperemia. A medida da espessura da polia, comparada com a de outro dedo ou do lado oposto, torna o achado objetivo.
- Espessamento do tendão flexor logo proximal à polia, às vezes com um nódulo tendíneo.
- Líquido na bainha sinovial.
- Avaliação dinâmica: pedir para o paciente fletir e estender o dedo mostra o ressalto do tendão ao passar pela polia. Quando presente, deve estar no laudo.
Sempre identificar o dedo (polegar, indicador, médio, anelar, mínimo) e a mão. Parece óbvio, mas "tenossinovite estenosante dos flexores" sem o dedo obriga o médico assistente a voltar ao exame.
Cisto sinovial (gânglio)
É a massa mais comum da mão e do punho. Ao ultrassom, uma formação anecoica ou hipoecoica, bem delimitada, às vezes multiloculada, sem fluxo ao Doppler e com reforço acústico posterior.
O que transforma "cisto sinovial" num laudo útil é a origem:
- Dorsal: a maioria se origina do ligamento escafolunar. Procurar e descrever o pedículo (o "colo" que liga o cisto à articulação) é o que orienta a ressecção; retirar o cisto sem o pedículo favorece a recidiva.
- Volar: frequentemente junto à artéria radial, entre ela e o flexor radial do carpo. A relação com a artéria precisa estar escrita antes de qualquer punção.
- Cisto de bainha tendínea: pequeno, firme, na base dos dedos, junto às polias.
- Cisto oculto: pequeno, dorsal, que não se palpa e explica dor sem massa. O ultrassom é o método que o encontra.
Descrever as medidas nos três eixos, a lobulação e a origem. E lembrar o diferencial: tumor de células gigantes da bainha tendínea é sólido e costuma ter fluxo ao Doppler; cisto não tem.
Síndrome do túnel do carpo
É a neuropatia compressiva mais comum do membro superior. O ultrassom não substitui a eletroneuromiografia, mas acrescenta o que ela não vê: a causa anatômica e a morfologia do nervo.
O parâmetro central é a área de secção transversa do nervo mediano na entrada do túnel, na altura do osso pisiforme. Os valores de corte variam entre publicações; áreas acima de aproximadamente 10 a 12 mm² são consideradas aumentadas, e a relação entre a área no punho e no antebraço distal acima de 1,4 reforça o diagnóstico. O laudo deve trazer o número, e não só "nervo espessado".
Além da área, vale descrever:
- Perda do padrão fascicular e hipoecogenicidade do nervo proximal ao retináculo.
- Abaulamento do retináculo dos flexores.
- Causas secundárias: tenossinovite dos flexores, cisto, músculo anômalo, nervo mediano bífido, artéria mediana persistente. Essas variantes mudam a abordagem cirúrgica.
Para aprofundar os critérios de medida, vale ler o nosso texto sobre ultrassom de nervos periféricos e área de secção transversa.
Sinovite e o olhar reumatológico
Em pacientes com artrite, o ultrassom de mãos e punhos avalia sinovite (espessamento sinovial em escala de cinza e sinal ao Doppler), erosões (defeito cortical visto em dois planos) e tenossinovite. Os escores semiquantitativos de 0 a 3 do grupo OMERACT/EULAR padronizam a descrição e permitem comparar exames ao longo do tratamento. Para esse público, um laudo com o grau por articulação vale muito mais do que "sinais de sinovite".
Erros comuns no laudo
- Não identificar o dedo e a mão no gatilho e na tenossinovite.
- Omitir o septo no De Quervain.
- Cisto sem origem, sem pedículo e sem relação com a artéria radial nos volares.
- Túnel do carpo sem a área do mediano em milímetros quadrados.
- Não comparar com o lado contralateral quando o achado é discreto.
- Esquecer a manobra dinâmica quando a queixa é de ressalto.
Como o Laudário ajuda
O Laudário tem módulos próprios de Mão e de Punho, além do Reumatológico de punho e mão e do de Nervos periféricos. Na prática:
- Os compartimentos extensores e flexores organizados por abas, com lateralidade, para que nenhum fique de fora.
- De Quervain, dedo em gatilho, cisto sinovial e túnel do carpo com as frases prontas e os campos de medida no lugar certo.
- Campo de área de secção transversa do mediano, para o número sempre entrar no laudo.
- Recomendações em aba própria, sem misturar conduta com achado.
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