Ultrassom de nervos periféricos: síndrome do túnel do carpo e o valor da área de secção transversa

Dicas Práticas 16 de julho de 2026· 12 min de leitura

A síndrome do túnel do carpo é a neuropatia compressiva mais comum do corpo humano, e durante décadas seu diagnóstico dependeu de um exame que os pacientes detestam: a eletroneuromiografia. O ultrassom mudou esse cenário de forma silenciosa e definitiva. Hoje, as principais diretrizes reconhecem a ultrassonografia como ferramenta diagnóstica de valor comparável ao estudo neurofisiológico na confirmação da STC — com três vantagens que a ENMG não tem: é indolor, mostra a causa da compressão e detecta as variantes anatômicas que mudam a cirurgia.

O centro desse exame é uma medida só: a área de secção transversa (AST) do nervo. Mas medi-la bem, e sobretudo interpretá-la bem, exige entender por que um número absoluto raramente basta — e por que a comparação segmentar dentro do mesmo nervo costuma dizer mais do que qualquer tabela de referência.

O que o ultrassom vê que a eletroneuromiografia não vê

A ENMG mede função: quanto o impulso demora a atravessar o segmento comprimido. É um dado excelente, e continua sendo referência. Mas ela é cega para a anatomia. Ela informa que há compressão do mediano no punho; não informa o que está comprimindo.

O ultrassom responde exatamente à pergunta complementar. Ele mostra o cisto ganglionar que empurra o nervo, a variante do nervo mediano bífido, a artéria mediana persistente, o músculo lumbrical de inserção anômala, a tenossinovite dos flexores que ocupa o túnel, o material amiloide, a massa de bainha nervosa. Ele mostra a subluxação recorrente do nervo ulnar sobre o epicôndilo medial durante a flexão do cotovelo — um diagnóstico que só existe em exame dinâmico e que a ENMG jamais fará. E, em pacientes com ENMG normal mas clínica convincente, ele frequentemente encontra o que o estudo funcional não capturou.

Há ainda um cenário em que o ultrassom é insubstituível: o trauma nervoso. Nas primeiras semanas após uma lesão, a ENMG não distingue neuropraxia de secção completa — ambas dão ausência de resposta. O ultrassom mostra, no mesmo instante, se o nervo está anatomicamente contínuo ou seccionado. É a diferença entre observar e operar com urgência.

A área de secção transversa: como medir

A AST é medida no corte transversal, com o transdutor perfeitamente perpendicular ao trajeto do nervo, contornando o nervo por dentro da margem interna do epineuro hiperecogênico — e não por fora dele. É uma diferença pequena no traçado que gera diferenças relevantes no resultado, e é a fonte mais comum de discordância entre examinadores.

Duas outras fontes de erro merecem atenção:

O exame se faz com transdutor linear de alta frequência (tipicamente 7 a 18 MHz), em planos transversal e longitudinal, e a varredura é dinâmica: percorre-se o nervo em toda a extensão acessível, não apenas no sítio suspeito.

Valores de referência por nervo e por sítio

A AST varia por nervo e por nível, e é por isso que uma tabela é indispensável. Os valores abaixo estão entre os mais utilizados na prática:

Nervo mediano

Nervo ulnar

Outros sítios frequentes

Uma ressalva honesta sobre esses números: os cortes na literatura variam. Para o mediano no punho, encontram-se valores entre 8,5 e 13 mm² conforme o estudo, a população e o método de traçado. É por isso que o valor absoluto, isoladamente, é o parâmetro mais frágil do exame — e por isso que existem as comparações.

O que realmente decide: a comparação segmentar

Aqui está o conceito central deste texto. Um nervo comprimido não incha por igual: ele incha focalmente, logo antes e no ponto de constrição, enquanto o segmento proximal permanece normal. É esse gradiente — e não o valor absoluto — que caracteriza a neuropatia compressiva.

A consequência prática é grande: a comparação intranervo normaliza o paciente contra ele mesmo. Um homem grande de 110 kg tem nervos maiores que uma mulher de 50 kg, e nenhum dos dois lê bem em uma tabela populacional. Mas o gradiente punho/antebraço de cada um é comparável.

Túnel do carpo: as duas formas de medir o gradiente

Há duas abordagens consagradas, e vale conhecer as duas:

As duas medem o mesmo fenômeno por aritméticas diferentes. Uma escada de decisão prática, combinando valor absoluto e gradiente, funciona assim:

Repare no que a faixa intermediária significa: a maior parte dos pacientes reais cai nela. Medir apenas o punho, nessa faixa, é jogar uma moeda. Medir o antebraço custa trinta segundos e resolve.

Os gradientes dos outros sítios

A assimetria bilateral

Há um terceiro eixo de comparação, especialmente útil quando a doença é assimétrica: o ΔAST bilateral, medindo o mesmo sítio dos dois lados.

Este eixo é o que sustenta o rastreio de hanseníase — doença em que o espessamento neural assimétrico é critério diagnóstico e em que o ultrassom tem papel importante e subutilizado no Brasil. Vale lembrar que a STC também é frequentemente bilateral, o que reduz a utilidade da comparação contralateral nesse contexto específico: se os dois punhos estão comprimidos, a simetria não tranquiliza.

Além da AST: a arquitetura interna do nervo

Reduzir o exame à área é desperdiçar o método. O nervo normal tem uma aparência muito característica no corte transversal — o padrão em favo de mel: fascículos hipoecoicos individualizados, separados por epineuro e perineuro hiperecogênicos. É um dos padrões mais reconhecíveis da ultrassonografia musculoesquelética, e sua deterioração é graduável.

Ecogenicidade

O padrão de comparação é a musculatura adjacente. O nervo comprimido perde ecogenicidade progressivamente, por edema endoneural: discretamente reduzida, moderadamente reduzida, ou francamente hipoecoico. A ecogenicidade aumentada, por outro lado, sugere fibrose — um nervo cronicamente lesado ou pós-operatório.

Padrão fascicular

A escala é ordinal e vale usá-la com precisão:

Sinais de compressão no plano longitudinal

O corte longitudinal mostra o que o transversal não mostra: o sinal do entalhe (notch sign), a constrição abrupta do nervo no ponto exato do aprisionamento, com dilatação fusiforme imediatamente proximal. É o achado que localiza a compressão com precisão milimétrica. No túnel do carpo, ele aparece sob o retináculo dos flexores; no túnel cubital, sob a arcada de Osborne.

Complementam o quadro o achatamento focal do nervo no sítio de compressão, a perda do plano adiposo perineural e o edema perineural.

Doppler: a vascularização intraneural

Um conceito que vale fixar: o nervo normal não tem fluxo intraneural detectável. A presença de vascularização dentro do nervo é, por si, um sinal patológico — reflete hiperemia inflamatória ou compressiva e correlaciona-se com a gravidade dos sintomas na STC. A hiperemia perineural, sem fluxo intraneural, é um achado intermediário e mais inespecífico.

Vale a diferenciação em três estados: vascularização perineural fisiológica sem fluxo intraneural (normal); hiperemia perineural isolada; e vascularização intraneural anormal — esta última sempre digna de menção explícita na conclusão.

A musculatura inervada: onde o tempo aparece

Esta é a seção que mais frequentemente falta nos laudos, e ela responde a uma pergunta que nenhuma outra responde: há quanto tempo esse nervo está sofrendo?

A regra de ouro, que deve estar clara para quem lauda e para quem lê: os sinais ecográficos de denervação surgem com latência de semanas após a lesão nervosa aguda. A ausência de alterações musculares não exclui neuropatia aguda — ela apenas indica que ainda não deu tempo.

A leitura do músculo tem dois eixos que apontam para fases opostas:

No túnel do carpo, o alvo é a eminência tenar (abdutor curto do polegar). Um tenar atrófico e hiperecogênico em um paciente com STC muda a conversa: não é mais um caso de tala noturna, é um caso de descompressão — e a recuperação motora pode já estar comprometida. Essa informação vale mais para a decisão clínica do que a própria AST.

Achados focais: quando a compressão tem dono

Nem toda neuropatia compressiva é idiopática, e o ultrassom é o único método de rotina que encontra a causa. Vale procurar ativamente:

Dois sinais complementares valem registro sempre que presentes: o efeito de massa sobre o nervo, com desvio e compressão do feixe, e o sinal de Tinel ecográfico — a compressão com o transdutor sobre a lesão reproduz os sintomas no território do nervo. Este último é a ponte direta entre a imagem e a queixa, e é gratuito.

Armadilhas do laudo de nervos periféricos

Como o Laudário ajuda a estruturar o laudo de nervos periféricos

O Laudário tem um módulo dedicado a nervos periféricos que trata a AST pelo que ela é — uma medida que só significa alguma coisa em comparação. Na prática, isso significa:

O resultado é um laudo que responde à pergunta do neurologista e à do cirurgião de mão ao mesmo tempo: há compressão, onde exatamente, de que grau, por qual causa, e há quanto tempo. Em uma condição tão prevalente quanto a síndrome do túnel do carpo — e em um exame que ainda é feito por poucos serviços com método — oferecer esse nível de estruturação é uma diferenciação real na sua região.

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