Doppler de carótidas e vertebrais: como estruturar o laudo na avaliação do risco de AVC e da estenose carotídea

Dicas Práticas 21 de junho de 2026· 11 min de leitura

O laudo do Doppler de carótidas e vertebrais precisa fazer três coisas de forma inequívoca: descrever cada segmento arterial bilateralmente, quantificar as velocidades em pontos padronizados e concluir com o grau de estenose segundo critérios consagrados (NASCET, Consenso da Society of Radiologists in Ultrasound de 2003). Na prática, isso significa registrar o complexo médio-intimal, caracterizar cada placa quanto a localização, extensão, espessura, ecogenicidade e superfície, medir PSV e EDV da carótida interna, calcular a relação ICA/CCA e avaliar o sentido do fluxo nas vertebrais. A conclusão deve dizer ao médico solicitante, em poucas linhas, se o caso é de seguimento clínico, intensificação medicamentosa ou encaminhamento vascular.

Essa exigência de padronização não é preciosismo. O Doppler de carótidas concentra decisões de alto impacto: estratificação de risco em assintomáticos, indicação de antiagregação e tratamento intensivo de dislipidemia, avaliação para endarterectomia ou stent e acompanhamento evolutivo de placas. Sem um roteiro fixo, o mesmo exame recebe laudos completamente diferentes conforme o operador — alguns descrevendo apenas o achado dominante, outros listando velocidades sem contextualização, outros omitindo a relação ICA/CCA, a caracterização da placa ou o status das vertebrais. Em pacientes com indicação potencial de revascularização, a diferença entre estenose moderada e crítica define a conduta.

Indicações e dados que devem aparecer na identificação

O laudo deve contextualizar a indicação clínica logo no início: investigação de sopro cervical, rastreio em paciente de alto risco cardiovascular (HAS, DM, dislipidemia, tabagismo, doença coronariana ou arterial periférica), sintomas neurológicos (AIT, amaurose fugaz, AVC prévio), pré-operatório de cirurgia cardíaca, seguimento de placa conhecida ou controle pós-revascularização (endarterectomia ou stent carotídeo).

Registre também o aparelho e a sonda utilizados — em geral sonda linear de alta frequência, com sonda convexa ou setorial em pescoços curtos ou em pacientes obesos — e as limitações técnicas encontradas: adiposidade cervical, sombreamento por calcificações extensas, intolerância à manobra de hiperextensão, traqueostomia, curativos. Esse bloco protege o profissional em casos de exame parcial e contextualiza o solicitante.

Igualmente relevantes são os dados que influenciam a interpretação hemodinâmica: pressão arterial no momento do exame, frequência cardíaca, presença de arritmia (especialmente fibrilação atrial), uso de medicamentos vasoativos e, em exames seriados, a data do exame anterior com comparação evolutiva explícita. Pequenas variações de velocidade de pico sistólico podem refletir mudanças de débito cardíaco e não necessariamente progressão da estenose.

Segmentos a serem avaliados: o esqueleto do laudo

A descrição por segmentos é o esqueleto natural do laudo carotídeo e segue a anatomia do território extracraniano: complexo médio-intimal, sistema carotídeo direito (comum, bulbo, interna e externa), o mesmo roteiro à esquerda, artérias vertebrais e conclusão. A simples menção a "carótidas pérvias" deve ser substituída por uma descrição explícita de cada segmento estudado.

Para cada artéria, descreva a situação como habitual, com placa não estenosante, com placa estenosante e respectivo grau, ou com oclusão. Manter a simetria entre os blocos dos dois lados facilita a leitura, a comparação com exames anteriores e a transcrição para o prontuário eletrônico. Sempre que houver dúvida sobre a acessibilidade técnica de algum segmento, registre.

Como caracterizar uma placa carotídea no laudo

A descrição de uma placa carotídea precisa ir muito além de "placa ateromatosa em bulbo direito". Os critérios morfológicos e hemodinâmicos consagrados permitem estratificar o risco e orientar a conduta. Cada placa relevante deve ser descrita quanto a:

Placas hipoecoicas, heterogêneas, com superfície irregular ou ulceradas são consideradas de maior risco embólico, independentemente do grau de estenose hemodinâmica. Essa caracterização deve constar de forma explícita no laudo, pois influencia diretamente a indicação e a intensidade do tratamento clínico.

Velocidades e critérios para estratificação da estenose

A análise hemodinâmica é o pilar quantitativo do laudo carotídeo. As medidas devem ser obtidas com correção angular adequada (idealmente ≤ 60°), volume da amostra centrado no jato de maior velocidade e em todos os segmentos relevantes — CCA distal, bulbo, ICA proximal, média e distal. Os parâmetros fundamentais incluem:

O Consenso da Society of Radiologists in Ultrasound (SRU, 2003) é o sistema mais amplamente adotado para estratificação:

Grau de estenosePSV ICAEDV ICARelação ICA/CCAAchado morfológico
Sem estenose< 125 cm/sAusência de placa visível
< 50%< 125 cm/sPlaca visível
50–69%125 a 230 cm/s40 a 100 cm/s2,0 a 4,0Placa com redução luminal
≥ 70% (sem suboclusão)> 230 cm/s> 100 cm/s> 4,0Placa com redução luminal acentuada
SuboclusãoVelocidades podem ser baixas ou indetectáveisLuz residual filiforme; morfologia e fluxo distal prevalecem sobre a velocidade isolada
Oclusão totalAusência de fluxo ao Doppler colorido, espectral e de potênciaSinal de "thump" pré-oclusivo na CCA ipsilateral

Os critérios devem ser interpretados em conjunto: nenhum parâmetro isolado define a estenose. Discrepâncias entre PSV, EDV e relação ICA/CCA devem ser explicitadas no laudo e justificadas (situações de baixo débito, estenose contralateral grave, tortuosidades, calcificações com sombra acústica que limitam a janela).

Espessura médio-intimal e marcadores de risco subclínico

A medida do complexo médio-intimal (IMT) da carótida comum distal é um marcador validado de aterosclerose subclínica e de risco cardiovascular global. Deve ser realizada em parede longe do transdutor, em segmento livre de placa, a cerca de 1 cm do bulbo, com imagem ampliada e, idealmente, com ferramentas automatizadas quando disponíveis. Valores acima de 0,9 mm em adultos são tradicionalmente considerados aumentados, embora o ponto de corte varie conforme idade, sexo e referência adotada.

O laudo deve registrar o IMT bilateralmente em milímetros, indicar o ponto de medida, informar o percentil correspondente para idade e sexo quando disponível e apontar se há espessamento difuso, focal ou se o valor está dentro dos parâmetros de normalidade — dado fundamental no rastreamento cardiovascular e no seguimento de pacientes em uso de estatina. A presença de placa, por si só, é considerada um marcador de risco superior ao IMT isolado e deve sempre ser descrita.

Artérias vertebrais: o que não pode ser esquecido

A avaliação das artérias vertebrais é parte obrigatória do exame e fonte frequente de laudos incompletos. O segmento V2 é o mais acessível e deve ser estudado bilateralmente quanto a:

Em pacientes com assimetria pressórica entre os membros superiores, com sintomas vertebrobasilares ou com suspeita clínica de doença da subclávia, é fundamental documentar o padrão da artéria subclávia ipsilateral e a resposta da vertebral à manobra de hiperemia reativa.

Achados adicionais extravasculares

Reserve um bloco para os achados extravasculares frequentemente encontrados durante a varredura cervical: nódulos tireoidianos incidentais, linfonodomegalias, cistos cervicais, alterações de glândulas salivares, paratireoides aumentadas. Esses achados não devem ser ignorados, e a forma mais segura de registrá-los é em um bloco dedicado, com indicação de avaliação complementar quando pertinente.

Conclusão e orientação clínica

A conclusão deve ser hierarquizada e objetiva, sintetizando em poucas linhas: a presença ou ausência de placas e suas características de risco, a lateralidade, o grau estimado de estenose mais significativa em cada artéria carótida interna (segundo os critérios do consenso adotado), a patência das vertebrais, os achados extravasculares relevantes e a sugestão de conduta — seguimento clínico, intensificação do tratamento medicamentoso, complementação com angiotomografia/angiorressonância ou encaminhamento para avaliação vascular. Evite repetir todo o corpo descritivo: o solicitante precisa ler a conclusão e já saber o próximo passo.

Em pacientes em seguimento, a conclusão precisa explicitar a comparação evolutiva: estabilidade da placa e das velocidades, progressão dimensional, mudança de ecogenicidade (potencial instabilização) ou aumento das velocidades sugerindo evolução do grau de estenose.

Achados que merecem destaque na conclusão

Erros comuns que tornam o laudo ambíguo

Como o Laudário ajuda a estruturar o laudo do Doppler de carótidas

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O resultado é um laudo de Doppler carotídeo padronizado, ágil de produzir e mais coerente entre exames sucessivos do mesmo paciente — o que faz toda a diferença no acompanhamento de placas conhecidas e no controle pós-endarterectomia ou pós-angioplastia. Em vez de partir de uma folha em branco, você ajusta um modelo já testado e foca no que realmente exige sua atenção: a leitura das imagens, a aplicação dos critérios de estenose e a correlação com a clínica.

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