Lesões focais hepáticas no ultrassom: cisto, hemangioma, HNF, metástase e o que escrever no laudo
Como reconhecer o cisto simples e o hemangioma típico, quando o nódulo pede tomografia ou ressonância, o que muda no paciente oncológico e no cirrótico e o que não pode faltar na descrição.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom de abdome: o guia dos achados que realmente mudam conduta.
O nódulo hepático encontrado por acaso é um dos achados que mais gera ansiedade no paciente e retrabalho no consultório. A boa notícia é que boa parte deles tem aspecto típico ao ultrassom e pode ser descrita com segurança. O que muda a conduta é o contexto: o mesmo nódulo hiperecogênico significa coisas diferentes num adulto saudável, num paciente oncológico e num cirrótico.
Cisto simples
Anecoico, de paredes finas e imperceptíveis, contornos regulares e reforço acústico posterior. Com esses critérios, é benigno e não precisa de seguimento. Septos grossos, componente sólido, nódulo mural ou fluxo ao Doppler tiram o cisto da categoria simples e pedem avaliação com tomografia (TC) ou ressonância (RM).
Hemangioma
É o tumor hepático benigno mais comum. O aspecto típico é de nódulo hiperecogênico, homogêneo, bem delimitado, em geral pequeno, às vezes com discreto reforço posterior e sem fluxo central significativo ao Doppler.
- Em paciente sem doença hepática crônica e sem neoplasia conhecida, o hemangioma típico pequeno costuma ser aceito como diagnóstico ao ultrassom.
- Hemangiomas grandes, heterogêneos ou de aspecto atípico, e qualquer nódulo hiperecogênico em paciente oncológico, devem ser confirmados por TC ou RM com contraste.
Hiperplasia nodular focal e adenoma
- Hiperplasia nodular focal (HNF): frequentemente isoecoica ao parênquima, notada mais pelo efeito sobre os vasos do que pela ecogenicidade. Pode ter cicatriz central e fluxo radiado ao Doppler, em padrão de "roda de carroça".
- Adenoma hepatocelular: mais comum em mulheres em uso de anticoncepcional hormonal; pode ser heterogêneo por sangramento. Tem risco de hemorragia e, em alguns subtipos, de transformação.
Nenhum dos dois é confirmado com segurança ao ultrassom. O laudo descreve o nódulo e recomenda caracterização por RM.
Esteatose focal e área de preservação
No fígado com esteatose, áreas poupadas aparecem como regiões hipoecogênicas; no fígado normal, a infiltração focal aparece hiperecogênica. As localizações típicas são junto à vesícula, ao hilo e ao ligamento falciforme. O que ajuda: forma geográfica, ausência de efeito de massa e vasos atravessando a área sem desvio.
Metástases
Costumam ser múltiplas, de ecogenicidade variável, e o halo hipoecoico periférico (padrão em "alvo") é um sinal de alerta. Em paciente oncológico, qualquer nódulo novo merece ser comparado com exames prévios e, em geral, caracterizado por TC ou RM.
Fígado cirrótico: outro raciocínio
No paciente com cirrose ou hepatite B crônica em vigilância, o nódulo não é presumido benigno. Pelo LI-RADS de ultrassom, observação com 10 mm ou mais, ou trombo novo na veia porta, classifica o exame como positivo (US-3) e indica TC ou RM multifásica. Nódulos menores que 10 mm entram em controle ultrassonográfico mais próximo.
O que descrever
- Número de lesões e segmento hepático de cada uma (classificação de Couinaud).
- Dimensões, ecogenicidade, contornos e presença de halo.
- Comportamento ao Doppler.
- Relação com vasos e com a cápsula.
- Comparação com exames anteriores: estabilidade é informação valiosa.
- Contexto que muda a conduta: hepatopatia crônica, neoplasia conhecida.
Erros comuns
- Chamar de hemangioma um nódulo hiperecogênico em paciente oncológico sem recomendar caracterização.
- Omitir o segmento hepático, o que dificulta o seguimento.
- Laudar área de preservação de esteatose como nódulo.
- Aplicar no cirrótico o mesmo raciocínio do fígado normal.
Veja também os textos sobre esteatose hepática e elastografia hepática.
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