Restrição de crescimento fetal: os critérios do consenso Delphi e o que escrever no laudo
A diferença entre feto pequeno para a idade gestacional e restrição de crescimento, os critérios do consenso Delphi para a forma precoce e a tardia, e como o Doppler entra no diagnóstico e no laudo.
Este artigo faz parte do guia Ultrassom obstétrico: o guia dos três trimestres, da datação ao Doppler.
"Feto abaixo do percentil 10" não é sinônimo de restrição de crescimento. Muitos fetos pequenos são constitucionalmente pequenos e saudáveis; alguns fetos acima do percentil 10 estão, na verdade, perdendo crescimento por insuficiência placentária. O laudo do ultrassom obstétrico ajuda quando usa os critérios do consenso Delphi (Gordijn e colaboradores, 2016), que separam os dois e combinam a biometria com o Doppler.
Pequeno para a idade gestacional x restrição de crescimento
- Pequeno para a idade gestacional (PIG): peso fetal estimado ou circunferência abdominal abaixo do percentil 10, sem outros critérios de restrição.
- Restrição de crescimento fetal (RCF): feto que não atinge o seu potencial de crescimento, em geral por insuficiência placentária, definido pelos critérios abaixo.
RCF precoce (antes de 32 semanas)
Na ausência de anomalias congênitas, qualquer um destes:
- Circunferência abdominal ou peso fetal estimado abaixo do percentil 3.
- Diástole ausente na artéria umbilical.
Ou a combinação de circunferência abdominal ou peso fetal estimado abaixo do percentil 10 com:
- Índice de pulsatilidade médio das artérias uterinas acima do percentil 95, e/ou
- Índice de pulsatilidade da artéria umbilical acima do percentil 95.
RCF tardia (a partir de 32 semanas)
Na ausência de anomalias congênitas:
- Circunferência abdominal ou peso fetal estimado abaixo do percentil 3.
Ou pelo menos dois de três:
- Circunferência abdominal ou peso fetal estimado abaixo do percentil 10.
- Queda de mais de dois quartis nos percentis de crescimento (circunferência abdominal ou peso fetal estimado).
- Relação cerebroplacentária abaixo do percentil 5 ou índice de pulsatilidade da artéria umbilical acima do percentil 95.
O papel de cada Doppler
- Artérias uterinas: refletem a placentação; alteradas reforçam a origem placentária na forma precoce.
- Artéria umbilical: resistência placentária. Diástole ausente ou reversa é sinal de gravidade.
- Cerebral média e relação cerebroplacentária: redistribuição de fluxo, mais útil na forma tardia, em que a umbilical costuma ser normal.
- Ducto venoso: na forma precoce, a alteração indica comprometimento avançado e pesa na decisão do momento do parto.
Veja o nosso texto sobre Doppler obstétrico para a técnica de cada vaso.
O que o laudo precisa ter
- Idade gestacional de referência (pela datação do primeiro trimestre, quando houver).
- Biometria com percentis e a curva de referência usada.
- Peso fetal estimado com percentil e a fórmula.
- Comparação com o exame anterior: a evolução dos percentis é critério diagnóstico na forma tardia.
- Doppler com índices e percentis.
- Líquido amniótico.
- Impressão diagnóstica que diga se os critérios de RCF foram preenchidos, e qual forma.
Erros comuns
- Chamar de restrição todo feto abaixo do percentil 10.
- Não comparar com o exame anterior e perder a queda de percentis.
- Doppler sem percentis, só com índices brutos.
- Não dizer qual curva e qual fórmula foram usadas.
- Datar a gestação pela biometria do terceiro trimestre, o que "normaliza" o feto pequeno.
Veja também o nosso texto sobre o laudo obstétrico do terceiro trimestre.
Como o Laudário ajuda
Nos modelos de obstetrícia do Laudário:
- Percentis de biometria, peso fetal e Doppler calculados a partir das medidas.
- Gráficos de crescimento no próprio laudo.
- Recomendações em aba própria.
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