Ultrassom de glândulas salivares: parótida, submandibular, cálculos, Sjögren e nódulos
O lobo do nódulo parotídeo em relação à veia retromandibular, a localização do cálculo no ducto, o escore da síndrome de Sjögren por glândula e os sinais que separam adenoma pleomórfico, Warthin e malignidade.
As glândulas salivares são superficiais, bem delimitadas e comparáveis com o lado oposto, o que faz do ultrassom o primeiro exame para quase todas as suas queixas: o inchaço que aparece durante a refeição, a parótida dolorosa com febre, a boca seca da síndrome de Sjögren, o nódulo palpável atrás do ângulo da mandíbula.
O laudo, porém, costuma ser genérico: "parótidas de aspecto habitual" ou "nódulo parotídeo". Este texto mostra o que descrever em cada situação, com atenção especial ao que o cirurgião de cabeça e pescoço precisa saber antes de operar um nódulo.
Anatomia que o laudo precisa usar
- Parótida: a maior das glândulas, com um lobo superficial e um lobo profundo separados pelo plano do nervo facial. O nervo não é visto de rotina ao ultrassom, então a referência prática é a veia retromandibular: o que está lateral a ela é superficial; o que está medial, profundo. O ducto parotídeo (Stensen) só é visível quando dilatado.
- Submandibular: no triângulo submandibular, com o ducto de Wharton correndo em direção ao assoalho da boca, onde está a maioria dos cálculos.
- Sublingual: no assoalho da boca, acima do músculo milo-hióideo.
A localização de um nódulo em relação ao nervo facial (lobo superficial ou profundo) define a cirurgia. É a informação mais importante do laudo de um nódulo parotídeo.
O parênquima normal e as alterações difusas
A glândula normal é homogênea e discretamente mais ecogênica que o músculo. As alterações difusas se descrevem por volume, ecogenicidade e textura:
- Sialoadenite aguda: glândula aumentada, hipoecoica, heterogênea, com hiperemia ao Doppler. Pode haver linfonodos reacionais e, na forma bacteriana, abscesso, que precisa ser medido.
- Sialoadenite crônica: glândula de volume normal ou reduzido, heterogênea, às vezes com ductos dilatados.
- Lipomatose glandular: glândula difusamente hiperecogênica, comum em idosos, obesos e diabéticos.
Sialolitíase
Cerca de 80% dos cálculos salivares estão na submandibular, porque a saliva é mais espessa e o ducto sobe contra a gravidade. A história é típica: inchaço doloroso durante a alimentação, que melhora em horas.
O ultrassom mostra o cálculo como imagem hiperecogênica com sombra acústica. O laudo deve informar:
- Localização: intraglandular ou no ducto excretor (e em que segmento).
- Tamanho do cálculo.
- Dilatação ductal a montante.
- Sinais de sialoadenite associada.
Cálculos pequenos no terço distal do ducto podem ser retirados por via oral; os proximais ou intraglandulares às vezes exigem sialoendoscopia ou cirurgia. A localização muda a conduta.
Síndrome de Sjögren
Na síndrome de Sjögren, o ultrassom das parótidas e submandibulares ganhou espaço como ferramenta diagnóstica e de seguimento. O achado característico é a heterogeneidade do parênquima com múltiplas áreas hipoecoicas focais, arredondadas, que nas formas avançadas dão o aspecto em "favo de mel" ou "queijo suíço".
O escore semiquantitativo do grupo OMERACT, de 0 a 3 por glândula, padroniza a descrição: 0 para parênquima homogêneo, 1 para heterogeneidade leve, 2 para heterogeneidade moderada com áreas hipoecoicas focais e 3 para acometimento difuso com as áreas ocupando a maior parte da glândula. Um laudo com o grau de cada uma das quatro glândulas maiores é muito mais útil ao reumatologista do que "parótidas heterogêneas".
Também vale atenção a nódulos em pacientes com Sjögren, pelo risco aumentado de linfoma.
Nódulos parotídeos
A maioria dos tumores das glândulas salivares ocorre na parótida, e a maioria dos tumores parotídeos é benigna. Os dois mais comuns:
- Adenoma pleomórfico: o mais frequente. Nódulo hipoecoico, bem delimitado, de contornos lobulados, frequentemente com reforço acústico posterior e pouca vascularização.
- Tumor de Warthin: típico de homens acima dos 50 anos e fumantes, pode ser bilateral e multifocal, com áreas císticas e septos.
Sinais que levantam suspeita de malignidade: contornos irregulares e mal definidos, infiltração dos tecidos vizinhos, vascularização desorganizada, linfonodos cervicais suspeitos e, clinicamente, paralisia facial.
Nenhum aspecto ecográfico substitui a análise citológica. A recomendação de punção aspirativa guiada faz parte do laudo de todo nódulo parotídeo sólido.
O laudo de um nódulo deve trazer: glândula e lado, lobo (superficial ou profundo, em relação à veia retromandibular), polo, medidas nos três eixos, ecogenicidade, contornos, componente cístico, vascularização e linfonodos intraparotídeos e cervicais.
Linfonodos intraparotídeos
A parótida contém linfonodos, e eles podem ser confundidos com nódulos. Um linfonodo intraparotídeo normal tem forma ovalada e hilo ecogênico, como os linfonodos cervicais. Descrever como linfonodo, e não como nódulo, evita punção desnecessária. Para a avaliação dos linfonodos cervicais, veja o nosso texto sobre linfonodos e massas cervicais.
Erros comuns
- Nódulo parotídeo sem o lobo.
- Cálculo sem localização no ducto e sem dilatação ductal.
- Sjögren sem o grau por glândula.
- Linfonodo intraparotídeo descrito como nódulo.
- Nódulo sólido sem recomendação de punção.
Como o Laudário ajuda
O Laudário tem modelo dedicado de Glândulas Salivares, com uma aba para cada parótida, cada submandibular e a sublingual. Na prática:
- Nódulos com localização por lobo, em relação à veia retromandibular, e por polo.
- Cálculo intraglandular ou no ducto excretor, com dilatação ductal.
- Sialoadenite aguda e crônica, lipomatose e o padrão heterogêneo com áreas hipoecoicas focais.
- Linfonodos intraparotídeos e periglandulares, com cartograma dos linfonodos cervicais.
- Recomendações em aba própria.
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